Dentre um rebuçado e um figo seco...
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Não vou deter-me em comparações possíveis, mas quero reviver as satisfações e a felicidade sentida por pouca coisa, o que, hoje, certamente não sucederá muito. Quem não tem nada, o pouco que consegue é fantástico e não será assim o mesmo para aqueles que possuem tudo e não valoriza quaisquer carências. Bem pelo contrário, quantas coisas adquirem, servirão apenas para estragar ou destruir. Cedo começaram as hostes a bombardearem, através de todos os meios escritos ou falados, os olhos e os ouvidos de toda a gente. Anunciam-se e vendem-se as mais variadas mixórdias, de alto ou baixo preço. E porque os tempos de crise obrigam a alardear aquilo que não se possui, então dissimula-se isso com a aquisição das coisas de valor superior. Os escaparates apetrecham-se de tudo quanto provoca os olhos e a vontade de cada um. Os adultos não resistem às exigências dos pequenitos que, não entendendo os preços e a incapacidade económica dos pais ou padrinhos, batem o pé e levantam-se em gritos para exigir os objectos mais estapafúrdios que só eles conseguem conhecer e manobrar. E, assim, levam a água ao seu moinho, ainda que venha a faltar o “pilim” para os livros e educação. A vida é fácil. Isso fica demonstrado nesta e noutras épocas semelhantes quando se multiplicam os gastos, sem rebuço e ninguém precisa de saber que este ou aquele lar está a sentir problemas graves. Tempo virá em que tudo estará completamente resolvido. “A vida são dois dias” e a esperança, diz-se, é a última a morrer! Portanto, embora o modo de viver não mude, faz-se figura de gente importante, ao menos, por uma vez.É ver, para testemunhar certo, a azáfama diária na corrida às lojas, engalanadas e providas das mais variadas tentações para grandes e pequenos. Povoam-se as salas de modas ou os bazares das prendas. Acendem-se luzes multicolores para que o trambolhão seja mais vistoso.Muita gente anda num sino, adquirindo isto e aquilo para que nada falte. Há que ser-se fiel ao convite lisonjeiro de gastar agora e pensar-se depois. Assim se preparam e comemoram os grandes acontecimentos e festas que deveriam conhecer outros contornos ou diferentes rotas de liberdade, mas que, afinal, acabam por aprisionar os incautos desta sociedade consumista. Vai acontecer Natal ou, antes, já aconteceu. Por aquilo que a mim e a todos é dado conhecer, estou em imaginar uma família, naquele dia que poderia construir comunhão de pessoas entre si, utilizá-lo de forma diferente e peculiar. O Jesus, neste ano, “deu” à mãe um computador, aos filhos maiores, outro e, aos mais novos, “tablets”, telemóveis modernos e sofisticados, “playstations” e outras bugigangas afins e semelhantes. O pai contenta-se com um novo televisor. Lembro de, quando eu pequenito, quase não dormir – como minhas irmãs também – para, logo de manhãzinha, correr para a lareira, onde as tairocas ou os chinelitos estariam “recheados” com um rebuçado (fruto e recompensa de favores prestados à professora para quem levávamos, diariamente, o pão, vindo da padeira) que nós poupávamos para “emprestar” ao Jesus, pobre porque tinha muitas chaminés a visitar numa só noite, e um figo seco, comprado na loja do lado para este efeito mimoso, saudável e cheio de poesia e ternura. Natal! Estou mesmo a idealizar o contraste de agora. Num lar, o pai a seguir um filme, a mãe e os filhos, cada um no seu computador a conversar e a jogar com amigos virtuais, brincando ao Natal da paz, mesmo durante a refeição, enquanto o diálogo fraternal e familiar se queda atrás do biombo da mentira e do vazio. Então, antevendo tal cenário… dentre um rebuçado e um figo seco, eu prefiro escolher para celebrar e, se me permitem, aconselhar um Natal em família, libertada de quaisquer aparatos narcóticos ou alienantes.
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