Dizia eu, no artigo anterior, que, na sequência de um passeio na freguesia de Lamas do Vouga, tinha decidido escrever e publicar um alerta sobre o estado de abandono em que se encontram dois dos mais importantes monumentos da região do Baixo Vouga, ambos nessa freguesia: as ruínas da cidade luso-romana de Talabriga e a magnífica ponte medieval do Vouga.
Uma situação de vandalismo e roubo entretanto ocorrida levou-me a dar maior atenção às ruínas romanas.
Venho agora abordar a actual situação da ponte do Vouga. Essa ponte foi levantada ao longo de várias décadas na segunda metade do século XIII. Na época, terá sido uma importante obra de engenharia.
A sua importância seria tal que o município conhecido como Terra de Vouga, o mais antigo da região, adoptou a ponte como seu símbolo heráldico, como se vê por alguns exemplares do selo municipal datados de finais do século XIII e início do seguinte. O selo representa a ponte com pilares altos e apenas cinco arcos, o que poderá indicar que o leito do rio ainda seria estreito e fundo.
Ponte de 12 arcos
O progressivo assoreamento do rio terá levado a sucessivas intervenções, com alteamento e alongamento do tabuleiro.
Em meados do século XVI (e não em 1529, como por vezes se diz), reinado de D. João III, a ponte terá sido completamente reconstruída. Em 1594, um italiano, Giovanni Battista Confalonieri, secretário do patriarca de Jerusalém, passando por ali, em peregrinação a Santiago, realçou que a ponte do Vouga era tão longa como a ponte de Sant’Angelo, em Roma (uma das famosas pontes romanas sobre o Tibre).
O corógrafo Carvalho da Costa, no início do século XVIII, realça que a ponte do Vouga era «de muitos olhais», ou seja, de muitos arcos, «mas já tam areada, que em tempo de cheas se passa em barcos».
Pouco depois, D. João V renovou a ponte, obra que ficou concluída em 1713, com doze arcos. Da ponte anterior, terão sido aproveitados os arcos pequenos da parte norte e os pilares dos restantes arcos. Posteriormente, em 1776, terão sido acrescentados mais três arcos no extremo sul da ponte. A ponte ficou então com um comprimento próximo de 220 m. A largura inicial da ponte, apenas 4 m, manteve-se até 1930, ano em que o tabuleiro foi alargado através da instalação de abas laterais em cimento armado.
Importância histórica
A importância histórica da ponte é por demais evidente. Todo o trânsito entre as principais cidades do país (Braga, Porto, Coimbra, Lisboa) passava por ali. Por ali passou gente de todas as classes sociais, desde o almocreve até às mais importantes figuras históricas nacionais, e muitas estrangeiras, ao longo de mais de 700 anos. Por ali seguiam também os peregrinos de Santiago de Compostela.
A ponte do Vouga remonta ao tempo das catedrais e bem podemos dizer que a ponte é uma espécie de “catedral” do Baixo Vouga, tanto mais que não possuímos nesta região nenhuma verdadeira catedral.
Em meados do século XX, o assoreamento tinha atingido o seu máximo, estando os pilares enterrados até aos arranques dos arcos. Da ponte medieval, nada estaria visível. Talvez pela menor antiguidade aparente, a ponte do Vouga nunca chegou a ser classificada. Já a ponte do Marnel, com origem no século XIV, e com apenas cinco arcos, foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1956. Na mesma ocasião mereceu idêntica classificação uma ponte ainda mais modesta, a ponte da Pica, em Oliveira de Azeméis.
Classificar a ponte
O leito do rio, desde meados do século XX para cá, o desceu vários metros, talvez devido à extracção de areias para a construção civil e/ou à realização de trabalhos de dragagem e regularização do leito.
Graças a esse afundamento do leito do rio, ficaram bem visíveis os pilares e os arranques dos arcos de uma ponte mais antiga. Embora me pareça que a parte mais antiga dos pilares pertence à ponte do século XIII, há quem pense que essa parte mais antiga datará da época romana. Seja como for, atendendo à antiguidade e monumentalidade da ponte do Vouga, seria fundamental a Câmara Municipal de Águeda promover a sua classificação.
O desassoreamento do rio, a partir de meados do século passado, foi deixando a ponte numa situação cada vez mais frágil.
Apesar dos alertas de várias entidades, ao longo de mais de uma década, não foi feita uma intervenção atempada, acabando por acontecer o que se temia: um dos pilares centrais da ponte (o 7º., a contar de sul) acabou por ser derrubado pela força das águas em 12 de Novembro de 2011.
Três passos
Atendendo à importância da ponte, a sua reconstrução foi de imediato solicitada por várias pessoas e entidades. Por seu lado, as populações locais reclamam a manutenção da ponte como forma mais prática de comunicação entre as duas margens do rio.
Todavia, passados mais de três anos, o pilar que caiu continua sem ter sido reconstruído e nem sequer foi feita qualquer intervenção de consolidação dos pilares que ainda estão de pé.
Inspecções anteriores a 2011 já tinham apontado que o 8º. pilar (que ainda não caiu) estava descalço. Custará assim tanto calçá-lo, prevenindo a sua queda? É também visível a degradação progressiva de outros pilares (ver imagens). Há arbustos enraizados em vários pilares, contribuindo para a sua desagregação. Não se pode fazer uma nova inspecção e reparar e consolidar o que existe, prevenindo assim perdas maiores?
Em resumo, seria importante a Câmara Municipal de Águeda dar três passos: 1) promover a classificação da ponte como Imóvel de Interesse Público; 2) reparar e consolidar o existente; e 3) reconstruir o pilar que caiu e a parte correspondente do tabuleiro.
- LUÍS SEABRA LOPES
ALERTAS
BERÇO HISTÓRICO E BELEZA NATURAL
Feitos os dois alertas, sobre a ponte e sobre as ruínas romanas, gostaria de deixar mais alguns comentários.
A freguesia de Lamas do Vouga é uma espécie de berço histórico da região do Baixo Vouga. Os vestígios desse glorioso passado ainda estão bastante visíveis. Cumpre à Câmara Municipal de Águeda, e aos cidadãos, em geral, pugnar pela defesa deste património.
Por outro lado, a beleza natural desta área é também incontestável. Faz falta um plano integrado de defesa do seu património histórico e natural, com o ordenamento do território, reabilitação dos edifícios com mais história, e promoção da fruição de toda esta área pelos cidadãos em geral. n LSL