No início de Setembro, querendo dar um passeio a pé, lembrei-me de o fazer na área de Lamas de Vouga, pela sua beleza natural e pela importância histórica dos monumentos que ainda ali se conservam.
Estacionei o carro em Pedaçães, junto à antiga casa do notável investigador regional Augusto Soares de Sousa Baptista, e logo aí tive um primeiro choque. A casa, que terá sido cedida a uma associação local, encontra-se em lamentável estado de degradação e abandono. Que pena!
Desci a ladeira, que terá sido também a velha estrada romana, depois atravessei a ponte medieval do Marnel e subi ao monte do Marnel, curioso por ver novos desenvolvimentos nas escavações das ruínas do povoado luso-romano que ali existiu.
Ruínas abandonadas
O meu interesse por esse assunto é antigo. Sobre ele, publiquei vários estudos pelos anos de 1994 a 2000. As escavações e a musealização do local, realizadas sob responsabilidade da Câmara Municipal de Águeda a partir de 1996, foram apoiadas por várias entidades.
A expectativa positiva que levava rapidamente deu lugar ao espanto e à consternação. As ruínas, afinal, estavam abandonadas, a cobertura metálica tinha desaparecido, as ervas daninhas rebentavam por todo o lado, uma arrecadação estava arrombada e as caixas com materiais arqueológicos catalogados estavam à mão dos “salteadores da arca perdida”. Felizmente, o edifício principal da estação arqueológica estava ainda intacto.
Ponte medieval
Embora desanimado, ainda tive coragem de descer até à margem do Vouga para ver outra importante ruína, a magnífica ponte medieval do Vouga, construída ao longo de várias décadas no século XIII.
Terá sido uma das mais importantes obras da engenharia da época em Portugal. Por manifesta falta de manutenção, viria um dos pilares da ponte a ser derrubado pelas cheias, em Novembro de 2011. Mais cedo do que tarde, e se nada for feito, outros pilares vão cair e a perda será muito maior.
Estava na hora de voltar para casa, pelo que subi a encosta até Pedaçães, onde o meu carro me aguardava. Enquanto subia, planeei escrever e publicar um alerta sobre o estado de degradação destes dois importantes monumentos.
A importância da ponte é por demais evidente, pois por ali passaram as mais importantes figuras históricas nacionais, e muitas estrangeiras, ao longo de mais de 700 anos. Sobre a ponte, não posso alongar-me mais neste artigo, mas a ela voltarei oportunamente.
Ruínas romanas
As ruínas romanas do Marnel são as ruínas do oppidum Talabriga, capital do Baixo Vouga na época romana, facto actualmente aceite pela generalidade dos autores. Classificadas como Imóvel de Interesse Público em 1947, na sequência da primeira campanha de escavações, as ruínas são desde então conhecidas como Estação Arqueológica de Cabeço de Vouga.
No tempo da construção da ponte do Vouga (século XIII, como referi), ainda era ali, junto da civitas do Marnel, na povoação conhecida como “burgo de Vouga”, que se localizava a sede administrativa do Baixo Vouga. Só mais tarde, com o progressivo assoreamento da rede hidrográfica, o burgo de Vouga perderia a capitalidade regional para a emergente vila de Aveiro, futura sede de comarca, provedoria, diocese e, modernamente, sede de distrito.
Num oppidum Talabriga aconteceu, segundo um autor clássico, um importante episódio de resistência à invasão romana da Lusitânia, no século II aC. Sobre esse relato, escreveu o investigador Félix Alves Pereira, em 1907:
“Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é, com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos oppidos lusitanos, e, embora narre um só episódio da guerra da conquista, não deixa de ser elucidativa. Quando li este texto de Appiano, confesso que senti amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as ruínas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram”.
Embora não seja completamente segura a identificação dessa Talabriga com a nossa Talábriga do Vouga, essa identificação continua a ser aceite por alguns dos principais autores.
Estátua monumental
Em mais de uma década de bom trabalho arqueológico (1996-2010), muitos objectos e fragmentos (tanto pré-romanos como romanos) foram encontrados, desde cerâmica até moedas e jóias, etc.. Entre eles, são de destacar três fragmentos de uma estátua monumental de guerreiro, que teria entre 2,5 e 3 metros de altura. Como é sabido, este tipo de estátuas sugerem centros urbanos de primeira grandeza, como era o caso de Talábriga.
O espaço sagrado construído pelos romanos no Cabeço da Mina consistiria de uma plataforma artificial aproximadamente quadrada, que incluía um criptopórtico. Sobre a plataforma se levantaria um pequeno templo (ver figura).
Terminei o meu passeio seriamente preocupado com o que tinha visto. Passadas umas duas semanas, voltei às ruínas de Talábriga, verificando que a arrecadação arrombada estava novamente fechada.
Afinal, ainda ia por lá alguém, de vez em quando, fazer alguma reparação mais urgente. No entanto, a porta da arrecadação continuava facílima de arrombar. Continuei, portanto, com a intenção de publicar um alerta sobre a situação.
No penúltimo sábado, dia 8 de Novembro, tendo já alinhavado um pequeno texto, voltei ao local para ver se havia novidades… Ora, de facto, encontrei novidades, mas não eram as melhores.
As portas e janelas metálicas do edifício principal da estação arqueológica tinham desaparecido, certamente para serem vendidas como sucata.
Alguns dos principais achados arqueológicos, bem como muita documentação dos trabalhos, ficaram à mão de quem os quisesse levar. Imediatamente alertei a Câmara Municipal de Águeda, através do contacto electrónico geral, e voltando a fazê-lo pessoalmente na segunda-feira de manhã, dia 10. Certamente, terão já resolvido o problema.
Câmara deixa a desejar
A actuação da Câmara, no entanto, no que diz respeito à preservação daquele património, parece que deixa a desejar.
O pior que pode acontecer a um sítio arqueológico é ser escavado, e, em seguida abandonado. Os vestígios arqueológicos, enquanto cobertos de terra, estão preservados. Qualquer escavação só deve ser empreendida sob garantia de futura preservação. A Câmara e outras entidades investiram recursos financeiros avultados para suportar as escavações.
Agora, não só não se preserva o sítio arqueológico, como aparentemente nem sequer se organiza o armazenamento correcto e seguro dos achados (e da documentação produzida). Por outro lado, a importância histórica e cultural da estação arqueológica deve ser tratada, não só na perspectiva da divulgação e do turismo, mas também na perspectiva da conservação e da investigação científica, com a correspondente publicação de resultados.
Câmara deve assumir
A falta de publicação de resultados é, de resto, o principal ponto fraco que identifico na intervenção do Gabinete de Arqueologia nos anos em que esteve mais activo. Assim, penso que a Câmara de Águeda deveria assumir as suas responsabilidades nesta matéria de forma mais consistente e abrangente. Como frequentemente acontece, é preciso que a opinião pública pressione para que os políticos actuem. Vai nesse sentido o presente artigo.
n LUÍS SEABRA LOPES