Era uma Vez: Crónica de um sonho
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Amava possuir um pássaro e, de preferência, o papagaio. Mas que não me incomodasse muito nem carregasse grande trabalho, ou demasiado desgaste de tempo. Estimo esta ave pelas suas penas de cores variegadas – azul, amarela, vermelha, verde, preta e outras – parecendo-se, e até confundindo-se, com as minhotas, mulheres douradas, expressivas e esfusiantes de falsetes nas garridices do seu folclore e das suas vestes. Mas, voltando ao papagaio, que fosse educado nas boas maneiras e “linguagem”, com razoável capacidade de aprendizagem, leal e dialogante companheiro, sempre pronto a transmitir recados em horas e às pessoas certas. Não o prenderia a qualquer corrente e, por isso, ele teria de me prometer indefectível fidelidade. Iria também acompanhar-me, para fazer as delícias de grandes e crianças que haviam de o admirar. Ele pediria licença para interferir nas conversas civilizadas e, sorrateiramente, buscaria o respectivo e adequado sítio para as suas necessidades primárias. Claro está que tenho a noção do meu sério dever de educá-lo dentro dos métodos decentes, clássicos ou actualizados. Imagino-o a pedir licença para se sentar ou levantar, a unir e levantar as suas patinhas, em atitude de oração fervorosa e atenta. Olhem: numa ocasião, não sei se escapados de algum circo ambulante ou evadidos de casa rica, o certo é que, em vez de um, encontrei dois papagaios, a brincar nos ramos de uma árvore. Logo tentei fotografar o achado. Porém, um deles fugiu, enquanto o outro se foi embrenhar no silvado, onde eu consegui pôr-lhe a mão. Com o cuidado de quem encontrou um tesouro, fui acondicioná-lo em lugar próprio, começando então a minha saga no trabalho de catequização e condução moral do “meu” papagaio, o que demoraria tempo infindo. Não consegui nada desses meus propósitos porque, entretanto, acordei. Estava a sonhar em tudo isto. Meio estremunhado, pude, todavia, abrir o caderno da reflexão sobre o papel de iniciação das crianças que entram, também brincando, na vida. Ainda todos nos lembramos, com certeza, da forma como nossas mães, em tempos que lá vão, nos aprumavam as mãozitas para nos ensinar as primeiras orações, fazendo-nos, de igual modo, repetir palavras que haviam de nortear futuros comportamentos quando a idade fosse avançando. É bem verdade que muito se transformou nas últimas décadas e os “papagaios” a quem não se acautelam as influências menos bem intencionadas, acabam por mostrar a indefinição e o desnorte dos caminhos nada recomendáveis, enquanto poderiam e deveriam demarcar a sua conduta na construção da sociedade equilibrada, respeitadora e sã. Conduzir os mais pequenos por trilhos saudáveis, alicerçados na envolvência da família, não é um sonho irrealizável mas, antes, uma exigência moral e estrutural para a firmeza das opções pessoais futuras, de modo a não repetirem, dizendo ou fazendo, quaisquer asneiras aprendidas e comprometedoras. A criança cresce, o adolescente e o jovem levantam os olhos na procura de estabilidade em todos os sentidos e os adultos serão o fruto de toda essa caminhada. Quantas razões, portanto, há em quem educa para não esquecer nem se cansar ou alhear daqueles deveres que recuperam a sociedade, evitando que ela se desmorone por completo. Não percamos a esperança, conscientes de que quaisquer “papagaios” falam e agem consoante nós próprios os ensinamos. n P. MANUEL ARMANDO
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