Já serravam a velha e outras usanças
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Aguada de Cima esteve em festa, a comemorar o quinto centenário da entrega do Foral Manuelino. Encheu-se o salão nobre da Junta de Freguesia, para ouvir loquazes, oradores, que sublinhariam esse facto. Amorim Laranjedo falou dos tempos idos e do homem cavernícula e troglodita até ao homo habilus que inventou a faca de cozinha e descobriu a roda redonda, concluindo que se ela fosse quadrada não andava, mas se fosse triangular poupava um solavanco. Quando viu pessoas a pestanejar, passou a palavra ao Celestino d´Almada que arengou sobre vários factos históricos, especialmente sobre o foral: “Não confundam foral com folar – disse a dado passo –, foral era um documento régio, em que era atribuída a administração das terras tiradas aos senhores feudais, às pessoas dessas terras. Punham-se uns marcos, construía-se um pelourinho para realização da justiça e quem passasse de uma vila para outra tinha que pagar um pedágio e, se fosse com animais, um imposto ad valorem. Havia muitas portagens, que davam emprego às pessoas, mas para ir de Aguada a Paradela, gastava-se um dinheirão em portagens!”. Seguiu-se o Correia do Trinta, que disse que já na altura se formou o cacetorum junto ao pelourinho, já serravam a velha e outras usanças. No fim, foram todos festejar, comeram à mão pedaços de um porco assado no espeto, que iam arrancando à laia dos anos quinhentos, substituindo os guardanapos de papel, que à época não existiam, por folhas de abóbora ou de couve alta. Em Aguada de Baixo, o Mar e Sal e outros notáveis que também comemoravam o quinto centenário da entrega do foral, pensaram: “Não podemos comemorar este facto marcante apenas com discursos enfadonhos e tediosos, como fizeram os de Aguada de Cima, que ninguém percebeu nada. O Albano da Sara ficou apenas a saber, daquilo tudo, que só podiam ficar a administrar as terras até à Mula Branca ao Vidoeiro e à Landiosa...”. O comandante Brito observou: “Acho que devíamos, para dar mais movimento, encenar um ritual, como se viesse cá agora o D. Manuel. Temos que escolher as personagens e vesti-las a preceito. Eu propunha para vestir de rei, o dentista Henrique de Barrô, porque, como sabem, antigamente o barbeiro era dentista e cirurgião e ele tem perfil para isso”. O Eduardo do Benfica acenou positivamente com a cabeça e acrescentou: “Para pajem era bom o Zé Manel da Roupa e, para receber o foral, a Zorinha Veiga, que é da assembleia de vizinhos”. “E tem que se mandar fazer um obelisco com uma pedra que tenha pelo menos 500 anos, e há aí muita, uma espécie de pelourinho, para assinalar a efeméride”, concluiu o Mar e Sal. No dia, cumpriu-se o ritual. Apareceu o rei, com uma túnica larga até aos pés, uma capa de veludo debruada a ouropel e um chapéu tricórnio de veludo azul. A seu lado, o pajem com uns colans e calções e camisa de folhos e um carapuço na cabeça. Dirigiram-se à Sorinha, que genuflectiu e recebeu o papiro das mãos reais. E o rei proclamou: “A partir de agora, são os donos destes arrozais, destes sapais, destes pinheirais e de tudo o que aí houver a mais”. “Muito obrigado, queríamos pagar o almoço, mas não temos tempo, Vossa Majestade tem que ir entregar outro a Barrô. Já está ali o coche real, à espera”. E lá estava o Custódio da Borralha, vestido de cocheiro, que os levou a Barrô, onde se realizou idêntico cerimonial, mas mais pobre, porque o Wilson Verdegaio e seus pares não tinham guarda-roupa da época.
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