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Nunca houve dinheiro

por Luisa (dra) Mello em Julho 23,2014

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Acabo de ler um livro, daqueles compactos pela densidade dos assuntos e pela abrangência dos mesmos: “Raínhas de Portugal - As mulheres que construíram a Nação, de um autor do sec. XIX, Francisco da Fonseca Benevides.
Deve ter sido um trabalho árduo para o autor, considerando que há dois séculos atrás, elevar mulheres a tão alto patamar devia ser, desculpem a redundância, obra! De resto, raínhas mesmo raínhas foram-no apenas D. Teresa, a do Condado Portucalense D. Maria I e D. Maria II. As restantes só o foram na sombra, enquanto mulheres - legítimas…-Dos nossos reis de raíz. Daí, a obra ter um título um pouco enganador: fala-se mais deles que delas. É, no entanto, um estudo muitíssimo bem documentado (Torre do Tombo, Portugaliae Monumenta Historica, Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa, História genealógica da Casa Real Portuguesa, Monarquia Lusitana, Colecção de Tratados, só para citar as fontes principais) e muito interessante para quem estiver interessado na evolução dos nossos 800 anos de história, já que o autor diz, no fim que o seu rabalho foi terminado em 26 de Maio de 1879.
De tanta matéria, escolhi uns apontamentos que me pareceram deliciosos, quer pela atitude e resolução de problemas políticos e económicos perante alturas de grandes crises (palavra-  -chave para a nossa comum vida de portugueses desde a fundação do reino…) quer pelo sentido de humor que, felizmente, sempre nos pertenceu. Para não ir longe demais que a folha não é toda minha, começo no reinado de D. Pedro II (1683/1706), filho do rei-restaurador, D. João IV.
“Este rei, à semelhança de Luis XVI, em França, pretendeu proceder à iluminação pública das ruas de Lisboa. Consultou a Câmara, que respondeu que não era possível dinheiro necessário a tal melhoramento. E apresentou os seguintes argumentos, sobre os prejuízos da não iluminação:
- Se havia cidades iluminadas no estrangeiro é porque eram mais  ricas que Lisboa.
- Se nessas cidades iluminadas à noite havia menos crimes, é porque lá a justiça era pronta, severa, igual para todos, enquanto em Portugal era tardia, indolente e se destinava só aos miseráveis e aos desprotegidos, nunca aos grandes e aos ricos. Que nesses afamados países do norte da Europa havia noites muito grandes de Inverno e os dias eram tão escuros, que era preciso trabalhar com luz, algo que não se verificava em Lisboa. Que as circunstâncias de Lisboa eram tais que, de noite, as pessoas bem comportadas deviam ir cedo para casa, tendo durante o dia, bastante tempo para os seus trabalhos, negócios e prazeres. Que iluminar Lisboa à noite, à custa dos rendimentos da Câmara era obrigar os obres a pagar as comodidades dos ricos. Que o municipio era muito pobre e não podia com mais tributos. (Porventura haverá por aqui objecões que ainda hoje teriam a sua razão de ser…) O autor termina o arrazoado com um comentário humorístico: “Note-se que os dignos vereadores não eram entusiastas dos progressos materiais do município que custassem dinheiro, mas também não eram servis. Lisboa permaneceu às escuras durante mais um século”.
Da mesma obra, sobre o reinado de D. João V (1706-1750), filho do precedente, descrição do contemporâneo José Cunha Brochado: “Em 1709, a segurança era inexistente em Lisboa, todas as noites se cometiam tantas mortes e roubos, que, pelo hábito, já parecia que matar era cortesia e que furtar era modéstia”.
Pelos vistos, talvez tivessem os dignos vereadores do município de Lisboa sido mais avisados com a necessidade de iluminação da sua cidade… Não havia era dinheiro, e onde e quando é que eu já ouvi isto?!… Do resto do país, o livro pouco fala. Já nessa altura, fora a gloriosa Lisboa, a paisagem era mais que muita!



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