Padeiros em festa
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Vêm pessoas de todo o lado, urbanistas, arquitectos paisagistas, fotógrafos e operadores de cinema, até o realizador Kinjolas, para apreciar a Rua de Cima coberta de chapéus coloridos. Os comerciantes daquela artéria não têm mãos a medir, têm que estar sempre a repor os stocks. “Não sei se são de chuva, se são de sol – respondia a Manuela dos Cacos – quando chove são de chuva!”. “E tiram-nos quando findar o verão?”, perguntou um visitante. “O que eu ouvi dizer é que a ideia de pendurar adereços é tão brilhante que já foi objecto de prémio e publicações em revistas de todo o mundo, até na Folha Paroquial de Recardães – respondeu a Céu Rinodente – no inverno tiram os guarda-chuvas e vão pendurar gabardinas nos arames”. “Mas tem que ser gabardinas das baratas, daquelas dos chineses, até porque o Clube gastou muito dinheiro a acabar as obras da antiga Pensão Santos e na compra de uma fábrica para um museu não sei de quê!“, acrescentou a Piedosa Queirós do Vale. “Os chapéus são bonitos, de diversas cores, mas metem muita política nisto, para haver um laranja tive que o ir comprar e pendurá-lo à porta da minha loja, sem ninguém ver”, segredou o Egberto das Canas. A certo momento, as atenções viraram-se para a rua que sai do tribunal, de onde se ouvia um alarido de tropel de pessoas. “Olhem uma manifestação! - gritou o Acácio Queirós do Vale – mas não há bandeiras vermelhas nem ninguém a gritar contra o governo?!”. Pela rua abaixo, na verdade, vinha uma multidão capitaneada pela Olívia Merkel, que trajava um avental branco, um chapéu de cozinheiro e uma enorme colher de pau na mão. Os que participavam no cortejo vinham vestidos de branco, com um barrete na cabeça e empunhavam cartazes com os dizeres, além de outros: “Viva o Governo” e “Padeiros em Festa”. Os transeuntes interrogavam-se: será que baixou o preço da farinha, ou subiu o preço da broa?! Finalmente, a manifestação chegou à Praça Vermelha, a Olívia Merkel subiu ao muro do rio, fez um longo discurso apologético, realçou as virtudes da Associação dos Secos e Molhados e rematou: “Isto é o fruto da nossa perseverança e persistência na perseguição dos nossos objectivos. Os industriais e comerciantes do ramo da panificação e os consumidores em geral irão ser beneficiados”. Ouviu-se, então, a voz de um infiltrado: “Afinal, o que é assim tão relevante e de tanto interesse?”. A Olívia Merkel pigarreou e bradou, com ar triunfante, agitando a colher de pau: “Reparem! Conseguimos que baixasse o IVA de 23 para 6% no pão com chouriço!". “Então e o resto das comidas, não baixam?”, perguntou o Óscar do Ribeirão. “Não, não há interesse nisso, o governo entende que o cidadão comum pode alimentar-se durante um dia a pão com chouriço, um alimento completo que tem o amido e os hidratos de carbono da farinha, as proteínas e o ferro da carne, os anti-oxidantes da gordura e as vitaminas da pele do chouriço!” “E além destas vantagens – continuou o Dr. Alberto Marquês, entusiasmado com a importante baixa de impostos – como vão ser encomendadas toneladas e toneladas de chouriço, a medida vai incrementar a instalação de pocilgas e de fumeiros...”. “E também pode fomentar a aldrabice – comentou, em surdina, o Vasco dos Vestidinhos – os padeiros vão começar a fazer pães enormes, com uma rodela de chouriço lá dentro, para pagarem menos IVA!”.
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