Os Rembrandts são todos falsos
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O renomado historiador, hermeneuta, paleólogo e exegeta Deniz de Bouquets, contador de estórias da história, falou para uma assembleia interessada, de episódios vários, alguns pitorescos, que aconteceram em Águeda. Com algum rigor, mas também com dúvidas, porque não foram factos ocorridos no seu tempo, contou: “Há muitos anos, passou por esta terra, de extensos milheirais, pinhais, carvalhais e outras coisas que tais, um homem de barba hirsuta, com boina larga e um capote comprido, com uma paleta de tintas e um pincel na mão”. “Algum pedinte?”, arriscou o Fernando Balantaines. “Não, esse homem chegou a Aveiro à boleia de um barco vicking, subiu o rio numa chata da apanha do moliço e atracou ao Cais das Laranjeiras”. Parou por momentos, olhou a assembleia e continuou, afirmando enfaticamente: “Esse homem chamava-se Rembrão!” O Braz dos Kiwis puxou as calças para cima e exclamou: “Eu, que sou um estudioso da ancestralidade, nunca ouvi ao meu pai, nem ao meu avô, falar de semelhante personagem!”. “Pois é – continuou no Deniz de Bouquets – contam as pessoas de antanho que ele desdobrou um papel em cima do muro do rio, viu uma varina e um homem na Rua do Barril acocorado a pensar na crise e, desenhou-os. Depois, arrumou a tenda e foi comer uma patanisca e beber um marquês ao Augusto Zica”. O Barata Figueiral, que assistia à assembleia, rematou: “Veio depois um tecelão do Porto e comprou-lhe os desenhos todos”. O dr. Amorim Laranjedo, que estava na assistência, deleitado com as histórias que ouvia, levantou-se num salto e com a face crispada, verberou num fôlego: “Isto não passa de uma caricatura indecorosa da figura de Rembrandt Rijn, um grande pintor holandês, dos maiores que pisaram este mundo!”. “Mais ou menos !”, balbuciou o Deniz de Bouquets. “Mas é – continuou o Amorim Laranjedo –as suas obras valem milhões e temos a dita de ter cá, na Fundação a que presido, muitas dessas obras, que estavam escondidas, para não serem roubadas, e que constituem um verdadeiro tesouro”. “E, como foi dada publicidade, têm chegado aí visitantes aos milhares, muitos curiosos e especialistas em arte”, rematou o Engº. Mateus dos Querubins. De repente, entrou porta dentro o José Neves dos Cantos que, com voz pausada e palavras ritmadas, afirmou com toda a frieza e crueldade: “Eu sei do que estão a falar. Eu, que já era pirrónico e céptico, já desconfiava, mas agora tenho a certeza. Tudo não passa de uma mistificação, de um embuste, os desenhos são todos falsos”. A Luisinha do Mel, ao ouvir aquilo, encolheu os ombros e disse: “Eu também já desconfiava, as gravuras não podiam ser do Rembrandt, só podiam ser do Rembrão”. Então, o Braz dos Kiwis, levantou-se e declamou este poema, que improvisou: Um charlatão Disse que a Fundação Tem centenas de Rembrants! Mas foram promessas vãs Porque as gravuras não são De Rembrandt São do Rembrão!|
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