Agora é a tua vez
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Estou convencido de que os pais tratam, como devem, os filhos pequenos, e durante o seu crescimento, sem o intuito de obter, mais tarde, quaisquer compensações. Tudo quanto fazem aparece como sinal de grande amor, com a mesma intensidade de quando pensaram na vinda deles ao mundo. É certo que, durante alguns anos, ainda os meninos não se bastam a si próprios. Aí, o pai e a mãe estarão sempre atentos, “adivinhando” o que se passa com qualquer dos filhos, no caso de dores desconhecidas ou não identificadas, nas necessidades mais básicas, nas suas primeiras expressões, palavras, descobertas, perguntas, “burrinhos” e, consoante o desenvolvimento, nos relacionamentos e brincadeiras. Estas e outras coisas mais fazem parte de uma vida familiar harmónica e responsável. Será, pois, natural que os filhos, crescendo, entendam o sentido da reciprocidade e gratidão que, afinal, é justiça. Convenhamos que, em algumas ocasiões, os próprios pais não proporcionam atitudes válidas e necessárias. Por receio de se confrontarem com gestos menos ortodoxos da parte dos seus filhos, quando estes não querem reconhecer tudo o que foi feito por eles, os pais coíbem-se de pedir ou exigir alguma coisa, por mais insignificante que pareça. Deveria fazer parte da educação familiar a evocação de coisas e factos acontecidos no dia-a-dia da casa, em tempos anteriores. Não seriam histórias para serem contadas ao borralho, em épocas de inverno, mas testemunhos vividos e transmitidos à geração mais nova. Recordo que, há já uns tempos, escrevi um pequeno texto sobre aquele menino a quem se danificou um carrinho - seu único brinquedo - e que, recorrendo à mãe, lhe disse: «Podes arranjá-lo porque és mãe e as mães sabem tudo». Ela, antevendo e acautelando uma desilusão comprometedora, em caso de recusa ou inoperância no momento, dirigiu-se a quem poderia remediar o caso e voltou com a solução, não gorando, assim, no garoto as expectativas que ele cultivava sobre as capacidades maternas. O tempo correu. Hoje, o garoto é um homem de vida, conhecedor e habituado às técnicas da informática que desenvolve, de olhos fechados. A mãe, por sua vez, querendo acompanhar o desenvolvimento de um mundo que se vai tornando mais técnico que pessoal, sentindo-se incapaz de entrar em alguns meandros do computador, abeira-se do filho e quase lhe segreda: «Quando tu eras pequenino, eu procurei pensar em tudo para que a mãe que sou não desiludisse, fosse no que fosse, o filho que és e nada te faltasse, como também aos teus irmãos. Com muita frequência, para isso acontecer, fiz das tripas coração. E, porque agora, preciso que tu me ajudes naquilo que eu não sei, é a tua vez». Talvez mesmo com um trejeito alheado, sentou-se e, sem qualquer mostra de agastamento e, até, com paciência e carinho, abriu os horizontes desejados pela mãe. Pode não valer nada esta história, mas é verídica e abre interrogações no espírito de quem observa a distância que se vai cavando entre os novos e os mais adultos, ainda que sejam da própria família. n PADRE MANUEL ARMANDO
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