Vivemos num mundo kafkiano
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O Primavera's é um centro cívico, ponto de encontro das manhãs de sábado, de pessoas que em pequenas tertúlias discutem sub-linearmente sociologia, antropologia, psicologia, hermenêutica, lógica e filosofia ao abordar temas profundos como futebol, política e vida alheia. O Heitocar chegou e, com ar de enfado, disse: «Estive na Assembleia do Clube, na comemoração do 25 de Abril e não percebi nada do que celebraram. Usaram da palavra vários figurões, bem nutridos, sem qualquer sinal de crise e falou uma oradora durante mais de duas horas e o que eu entendi do discurso dela é que este governo tem que ir abaixo!». «Eu também lá estive e é verdade – acrescentou o Batistuta dos Automóveis – falou muito e até disse que espezinharam as conquistas da revolução... mas aquilo não era para ali chamado...». «Já falam em acabar com conquistas desde o 25 de Novembro, mas nessa altura eram umas e agora são outras, mudaram de agulha como os velhos gramofones», acrescentou o Vitor Mor do Gado. «Em todas as comemorações daquela data, os discursos são sempre os mesmos, parecem feitos por decalque. Os soaristas depuseram o governo anterior. Depois vieram os cavaquistas que depuseram os soaristas e vieram para a rua os outros com grandes cartazes a exigirem com vaias e apupos a queda do governo. Seguiram-se os guterristas, os barrosistas que disseram que o país estava de tanga. Depois os socratistas mandaram os barrosistas abaixo e assim sucessivamente, até que chegou este governo», disse, com voz pausada, o Carlos Carapuço. «E cada um deles culpava e culpa o anterior, por acabar com as conquistas de Abril – comentou o Dr. Mário Luís das Gargantas – ou as conquistas foram muitas, ou algumas foram reconquistadas ou este governo já não teria nenhumas conquistas para banir!». «A verdade é que o actual governo tem causado grandes inquietações e falta de dinheiro no bolso dos portugueses», opinou o Celestino de Almada. «Isso é certo, eu também tenho sentido a crise, há muita gente que nem dinheiro tem para mudar as lâmpadas fundidas dos carros – interrompeu o Joaquim das Baterias – diziam que não subiam os impostos e agora apresentaram a tragédia orçamental...». «Olhe que não é tragédia, é estratégia orçamental», corrigiu o Mar e Sal. «Seja o que for – continuou o das Baterias – só sei é que vão subir o IVA, que vai levar à subida dos preços e da TSU, trocaram o nome de solidariedade por sustentabilidade, não sei para quê...». «Isso é uma questão semântica - rematou o Vitor Mor do Gado – com um nome ou outro dói na mesma, vivemos num mundo kafkiano, debaixo de um ordenamento pesado, cheios de frustrações e inquietações, sem dinheiro e não cometemos crime nenhum!». *** ª *** O Hermínio Bonito saiu com os cães, prendeu-os ao poste que elas costumam usar para as suas necessidades e entrou no Estimado dos Papéis, onde demorou algum tempo a falar das vitórias do Benfica. Quando saiu do estabelecimento, ficou em pânico, porque os cães tinham desaparecido. Gritou desesperadamente e correu rua abaixo: «Roubaram-me as cadelas, alguém as viu por aí? São amarelas, pequenas, mas bem nutridas e de pelo luzidio e só não falam para não pagar impostos! Foi algum portista... Estava quase a desfalecer, apavorado, quando o Zé do Candeeiro lhe bateu nas costas e o sossegou: «As suas cadelas não se perderam, só foram beber um copo à minha loja!».
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