Clube da Venda Nova: Cidadãos, querem-nos tirar o hospital!
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Ao som dos acordes das bandas, a Procissão dos Passos aproximou-se do largo para o sermão do encontro. O Joaquim da Trigal comerciante perspicaz, aproveitou e montou uma banca à porta a vender cavacas, regueifas e suspiros. O Acácio Queirós do Vale que vinha na procissão com uma opa preta da irmandade, a empunhar um lampião, chegou cansado, comprou uma cavaca e foi ao Zé do Candeeiro molhar a cavaca com um verdasco de Belazaima. Como o sermão do encontro foi curto, porque o padre era novo, não conhecia os costumes e não sabia como havia de pôr as pessoas a chorar, a cerimónia acabou cedo e o Gil Pedalais que veio na procissão do lado de Paredes, aproveitou a presença da multidão, foi à varanda e disse ao microfone, com ar tribunício: “Cidadãos, querem-nos tirar o hospital! Querem que os de Águeda morram pelo caminho se lhes der algum achaque, alguma patologia psíquica ou física, grave ou muito grave!”. “É verdade, é uma vergonha, temos que reagir”, gritou, com veemência, o Egberto das Canas, do meio da turba. “O hospital – continuou o Pedalais - não são só quatro paredes com uma porta, mas sim o que se faz lá dentro para tratar das pessoas...”. “Mas olhe que já nos levaram quase todas as valências, designadamente a otorrino, a pneumologia, a obstetrícia, as mulheres têm que ir a correr para Aveiro...”, atalhou o Dr. João Paulo Cordeiro Velho, que estava a mastigar um fusi. “Pois é, mas não nos podem levar tudo – continuou o Pedalais – já tentámos o diálogo com o poder e não nos ouvem, fomos lá suplicantes com uma proposta magnânima, mas mal virámos as costas votaram logo contra...”. “Se eles votassem a favor de todas as moções, petições e abaixo-assinados por terem encerrado urgências, centros de saúde, médicos de família, para não falar de tribunais, escolas, CTT, etc, pelas minhas contas, tínhamos que pedir outro resgate”, disse o Dr. Alberto Marquês a desapertar os alamares da opa. “Seja como for, e isto não tem nada a ver com eleições, vamos marcar já uma data para uma marcha ordeira e pacífica até ao hospital, mas ruidosa, só até ao jardim, para não incomodar os doentes”. continuou o Gil Pedalais – ”as mulheres vão à frente em duas alas a bater em panelas e tachos com colheres de pau e os homens atrás, a tocar em cornetas de plástico”. “Mas tem que chamar as televisões, se não eles não querem saber da manifestação para nada, porque não se ouve o barulho em Lisboa”, opinou o Luis Bastinhos.
*** * *** Na sede dos Laranjas de Águeda, reuniu o conselho político, doutrinário e deontológico. O presidente Carlos Franquezas, depois das saudações habituais e de todos entoarem o hino, falou: “Estamos novamente em vésperas de eleições. Tem que haver espírito de união, militância e sinergia”. “Mas tem havido”, disse o Paulo Roçado da Mata. “Ai não tem, não!”, exclamou a Drª. Paula de Barrô – ”temos que fazer uma purga ou expulsão de elementos perturbadores. Por exemplo, perdemos em Aguada de Cima com menos de 40% dos votos...”. “Que grande cabazada …”, disse, entre-dentes, o Mar e Sal. “… E o culpado foi o António Figueirais, que se mostrava indefetivel e mudou-se para o outro lado, apesar do candidato a presidente da nossa lista - sei eu - ser um rapaz com muitas qualidades intelectuais, capacidade de trabalho e bem apessoado!“. “Não pense em expulsões - interrompeu o Hilariante Santos – até devíamos estar orgulhosos de termos tantos e tão bons miltantes que até podemos ceder alguns, para dar luzimento a listas de outros...”.
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