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Memória: Desenlace

por Paulo Sucena (Dr.) em Maro 12,2014

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À memória de minha mãe.
À lembrança da sua voz e da maneira inigualável como lia e me contava histórias intermináveis, no tempo em que a besta nazi martirizava a Europa e em que da varanda da velha casa se estendia uma esparsa melancolia pela Rua de Baixo, fora até à regular geometria dos canteiros do Jardim Novo.

A mãe deitara fora o calendário.
O dia 8 de Março era uma data
apagada
na memória de quem já esquecera
sabores tacto odores e as palavras
eram sons ausentes.
Só a voz resistia e também a frescura
com que voava o meu nome
em diminutivo
sob a aragem e silêncio dos pinhais
ou sobre o cheiro amargo e húmido
do azevém dos campos de Águeda.

Era tão grande o desamparo
tão longe a vida
que a incerta mão direita
não conseguiu1 estrangular a dor
enorme
que toda a noite jorrou
do lado esquerdo do ventre
até às horas neutras da breve
manhã
que projectou sobre o leito
um estreito abacinado triângulo
de luz.

A Alfa Tauri apagara-se no seu olhar
despenhando-se no abismo negro
da cavidade peritoneal.
Nenhuma grua de lá
a poderia retirar.
O louco movimento das células
tudo devastara.

Persistiu porém por um breve instante
um enigmático sorriso
e o fugaz brilho das agulhas de prata
com que as mães se obstinam
em rendilhar a infância dos filhos
antes que mergulhem
no infrene rio da vida.
n  PAULO SUCENA - 8/03/04

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