Águeda: Comendador oferece um Hospital
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Dois vocábulos (amor e razão) devem exprimir, para qualquer cidadão, dos sentimentos mais nobres da humanidade e, quando feridos, provocam, naturalmente, a amargura, parceira dilecta da revolta! Foi o que aconteceu connosco, em relação às discussões acerca do nosso Hospital, que culminaram com inoportuna discussão no Parlamento, na presença de uma delegação (?) saída de Águeda. Discutir sem princípios nem amor, O MAIS IMPORTANTE PROBLEMA DO NOSSO CONCELHO, seria sempre uma caminhada a terminar no fracasso que, para ser maior, até se tornou público! Pedir a outrem que cumpra o seu dever, antes de lhe dar o exemplo de cumprido o nosso, é um acto ferido de morte… E a generalidade das forças vivas de Águeda, salvo raras excepções, tem enchido a boca com os benefícios e pergaminhos do nosso Hospital, mas não lhe prestaram a atenção que ELE MERECIA e, com este anátema, falta-lhes o lastro indispensável ao equilíbrio da sua bem merecida defesa!
Um novo Hospital Já durante o tempo que fiz parte da Câmara Municipal (há quase meio século), eu fazia eco, naquele órgão administrativo, das minhas preocupações pelo espaço necessário para um novo Hospital, visto que aquele (que ainda hoje é o mesmo), excelente para os anos da sua feitoria (fim do século XIX), já evidenciava a sua elevada e crescente incapacidade! Era minha preocupação que a Câmara tentasse adquirir os terrenos até aos limites da Alta Vila, para neles erigir um novo Hospital, em substituição daquele que, para nossa vergonha, ainda agora querem continuar, numa situação que há mais de 40 anos já se considerava ultrapassada! Em 1940, já então estabelecido em Barrô há cinco anos, estive no cerne da organização de todos os Cortejos de Colheitas, que foram o grande suporte financeiro do Hospital que, nessa altura, não tinha qualquer apoio estatal. Estes cortejos foram iniciados em Barrô, por dois empregados do sr. dr. Breda, o Belmiro e o António Sobreira, transmitiram-se ao concelho e avassalaram o país, até aos dias de hoje, agora com variados objectivos. Aliás, foi este emérito médico e cirurgião (dr. Breda) quem, em 1922 com a ajuda da excelsa fidalga D. Maria Joana Cabêdo e Lencastre, inauguraram o Hospital, já há anos acabado, pelo senhor Conde Sucena.
Jóia mais preciosa
O dr. Breda foi o seu primeiro director clínico, graciosamente, durante cerca de meio século, granjeando para aquela Casa de Saúde uma aura de quase santuário da saúde, que avassalou o país e chegou à Europa, tendo operado alguns estrangeiros, entre os quais o engº. Leman, que foi director da União Eléctrica Portuguesa e a alma-mater da electrificação do nosso concelho. Era o tempo em que aquele médico se confundia com a nossa terra e o Hospital era a jóia mais preciosa do nosso concelho. Já naquele tempo, o ainda merceeiro retirava do seu negócio três notas de conto que, em carta sem assinatura, enviava ao seu carismático director, com a exigência da compra de um elevador, condição que foi aceite. E funcionou durante dezenas de anos. Foi nesta época que o meu Amigo e providencial administrador, capitão José Maria Coutinho, sempre que tinha um “aperto” enviava ao Toneco um SOS porque, naquela época, um ou dois centos de escudos chegavam para tapar um buraco! Fui, por dois mandatos, presidente da Assembleia Geral da Misericórdia e, nessa altura, entre vários factos de relevo, como os novos estatutos, impedi que a Quinta do Redolho, doada pelo meu querido Amigo, arquitecto Joaquim Carvalho da Câmara, filho do dr. Carvalho e da D. Aninhas, fosse vendida a prestações, por 2 500 contos! O elevador que está no Lar da Misericórdia, e tão bons serviços tem prestado, foi também, oferta minha. Que digam os Exmºs. Provedores e perguntem ao senhor dr. Amorim de Figueiredo quantos milhares de euros passaram da minha conta para a da Misericórdia, nos seus mandatos.
Oferta da Quinta
Há cerca de 16 anos, na segunda semana do primeiro mandato do presidente Castro Azevedo, combinei com ele e o dr. Marçal, presidente da Assembleia Municipal, um encontro no qual lhe ofereci a minha Quinta da Vista, que foi do senhor Conde Sucena, para lá ser instalado um novo Hospital, porque pensava que era urgente o tempo da substituição. A oferta, apesar de adornada com bonitas frases, não teve efeitos práticos, pelas mesmas estéreis razões de agora, que assentam em dois vértices fundamentais: Quem tem razões para fazer não faz, eles lá saberão porquê,… mas os outros, também nada mais fazendo, sentem-se com direito a criticar! Todas estas afirmações foram pensadas no tempo que levaram a escrever, sem consultar qualquer apontamento, porque estão indelevelmente marcadas no subconsciente, onde se guardam, com amor, as coisas importantes da vida!
A Câmara e o Hospital
Há meses, pedi ao actual e meu amigo presidente da Câmara, que gentilmente se deslocou ao meu modesto escritório, tendo--lhe confidenciado o meu desgosto pela forma como o assunto do Hospital estava a ser conduzido. Disse-lhe que tinham sido mal gastos os milhões enterrados em remendos e que estava na disposição de dar, para um novo Hospital, com as valências do S. Sebastião (Vila da Feira), o melhor terreno do concelho para este efeito, com a área de 43 000 mil metros quadrados, e mais cinco milhões de euros. É intuitivo que um munícipe que tanto tem feito e quer fazer, por uma causa que é do concelho e do país, esperava do ilustre autarca, ao menos, um sacrifício igual ou parecido, com o que eu estava a oferecer.
Erguer e doar um Hospital
Pensava eu (ingénuo convencimento!) que, depois da minha oferta e a da Câmara, havíamos de conseguir uma audiência do Senhor Ministro e que ele nos ia dizer logo: “Não pode ser!… Então não sabem a situação de austeridade em que está o País?”. Mas…, com a nossa GRANDE CONVICÇÃO, nós iríamos responder: “Senhor Ministro, já sabíamos que iríamos ouvir essa afirmação, mas também (de outra forma não viríamos cá), trazemos a V. Exª. factos que só por milagre acontecem”. E, dando-lhe conta da nossa oferta, aduziríamos, entre outras, estas razões: Águeda é a cidade mais importante de uma região excepcional, com belezas variadas e quase ímpares, como é a nossa donairosa BAIRRADA, com fantástico crescimento industrial (primeira condição para salvação económica do país), que exporta grande parte da sua produção e que, com a dinâmica deste crescimento, vai necessitar, entre outras infra-estruturas, de um Hospital digno desta região e da sua pujança económica! O que propomos a V. Exª situa-se num vértice de comunicações excelentes, que vai do centro ao norte e sul do país e da nascente a poente (Aveiro e Vilar Formoso). O país necessita que Águeda, e a região que lhe é adjacente - e que vai até Sever do Vouga e Oliveira de Azeméis -, tenha um bom e completo Hospital e nós vimos oferecer, a V. Exª. e ao país, a realização desse privilégio. Prometemos erguer e doar um edifício acabado para o novo Hospital, dando-nos V. Exª. apenas o projecto ou, em alternativa, V. Exª. toma a iniciativa de fazer e nós comparticipamos com o terreno e dez milhões de euros. O Governo, só depois entrará em acção, acentuando que o dinheiro gasto, com este empreendimento, fica todo no país e servirá para movimentar a nossa tão carenciada economia! Tentei explicar aos aguedenses porquê, e como, imaginei realizar esta acção e, mais uma vez, antecipando o tempo, pensava que, com essa antecipação, iríamos sair vitoriosos.
Vale a pena lutar?
O meu julgamento deixo-o àqueles que, como eu, se lembram dos que na vida não tiveram a nossa sorte, mas que, exactamente por isso, tem o direito de não serem ignorados. Fui obrigado a falar de mim (o que creio ser inédito), porque estas minhas acções são desconhecidas dos cidadãos deste tempo. Longe de mim pensar que devo ter honras de herói, porque tudo o que tenho feito pela sociedade faz parte do código dos meus deveres! Uma pergunta final aos aguedenses, vivendo em Águeda ou dispersos por todo o mundo: ainda valerá a pena lutarmos? Para mim, valerá sempre a luta… Quando o bem da GREI se disputa! - ALMEIDA ROQUE * PS: Tem a palavra a Câmara. - AR
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