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E em que acreditamos nós?

por Luisa (dra) Mello em Janeiro 29,2014

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E lá passou mais um Natal, e lá se virou mais uma página do calendário dos anos civis e lá vamos todos nós à vidinha comum de cada dia e lá regressaram muitos de nós àquela angústia dos meses compridos de mais para curtos euros e lá nos preparamos para infindáveis teorias de todos os géneros e feitios sobre a temperatura do termómetro  do deve e do haver da Nação.
O que não quer dizer que, lixada a Troika, acendamos todas as luzes e proclamemos um arraial de estrondo, ao estilo do rei faz anos… Endividámo-nos demais para festanças dessas. Os nossos credores não vão deixar a atitude bordalo-pinheiro do queres fiado? Toma!… Se calhar antes pelo contrário: “Olho neles que têm vocações imperiais, de Impérios que nem quando o forem souberam gerir. Melhor será guardar-lhes de lado uns dinheiritos, debaixo de olho e com orientação, para futuras pedinchas. Deve ser a isto que se chama programa cautelar. Não gosto, mas como se usa dizer, mais vale um pássaro na mão que dois a voar.
- SÓCRATES: Se há um vício que admito em mim é o de estar a fazer permanentemente de Sócrates o cepo das marradas. Mais uma: naquele recente encontro de deputados europeus sobre os excessos da Troika, em Lisboa, apareceu sozinho, sem o seu antigo ministro das Finanças, o tal que o obrigou a “cozinhar” o resgate. Boa ideia! Melhor mesmo só não ter aparecido ele também, tão imaculado e puro de culpas.
 Cada vez  que me lembram os 322 milhões de euros gastos no Parque Escolar, as dívidas deixadas nos hospitais públicos, as trapalhadas dos magalhães (desculpem não escrever com letra maíuscula; não é por causa do acordo ortográfico é porque nome de computador não é nome próprio), o aumento de 2,9% aos funcionários públicos nos tempos da sua segunda reeleição, em contrapartida com o congelamento de pensões acima de 200 euros.
E por aqui me fico, que o cepo pode rachar, não contenho o ressentimento. Quem viver depois que feche a porta e mandar ainda bitaites sobre o empurrão a dar à mesma é ter lata que dava para fazer um bairro inteiro, daqueles de má memória do antigamente!
- RECESSÕES: Eu, como já disse, tenho esperança. Deixámos a recessão, embora a maior parte de nós não tenha ainda dado por isso. E quando daremos?
Quero dizer: o dinheiro pode ainda ser escasso, embora não falte quem o gaste… Verifiquei-o sobretudo em Lisboa, neste último Natal. Enchentes nos hipers, nos supers, em todos as chafarricas à vista, não falando daqueles locais de garfos e facas, onde se dá ao dente e à bolsa, dos mais sofisticados aos mais modestos, “paletes e paletes de gente”, como dizia Futre!
- PAI NATAL: Os meus Natais de infância não eram a festa do consumo. “Somente” a comemoração do nascimento de Jesus Cristo.
Não havia Pais-Natal, nem, pior ainda, mães-natal descascadas, ou misses-natal com silicones peitorais e extensões postiças nas cabeleireiras. Por isso, e porque na minha mesa a maioria das cadeiras de então estão já vazias, deixou de ser uma festa de muita alegria.
 Se for a pensar nos desempregados e nos verdadeiramente desvalidos não há alegria assim no seu estado puro, possivel.
Os da minha geração lembram-se ainda de certeza daquela garotinha americana de seis anos, de seu nome Shirley Temple, cabelo aos caracóis, carinha de boneca, que fazia filmes para crianças e era por eles adorava. Li um dia destes uma declaração sua (sim, ainda está viva!…) do seguinte teor: “Deixei de acreditar no Pai Natal quando ele me pediu um autógrafo”. Eu também e não foi preciso tanto!…


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