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É fantástica a onda de simpatia que tem pairado, nestes últimos tempos, sobre a figura carismática do actual Papa. Parece, até, que ele não pode dar um pequeníssimo passo para a direita ou para a esquerda sem que alguém não o siga ou deixe de registar tudo em livro, artigo, fotografia ou simples notícia. Naturalmente o mesmo já aconteceu com outros Papas dos tempos idos ou destes recentes, com mais ou menos intensidade. Nada de admirar porque, efectivamente, trata-se de personalidades proeminentes e mediáticas, carregadas de sentido a todos os níveis, que não só eclesiais. Aliás o facto de o Papa ser um Chefe de Estado dum território diminuto que faz lembrar a Escritura, na profecia de Miqueias, quando diz: «E tu, Belém, não és a mais pequena das cidades…» (Miq. 5/1…). A importância da cidade realça a individualidade do seu chefe, como o contrário também. Podemos todos é incorrer no pecado do imediatismo, acerca da pessoa, supondo mudanças a serem realizadas por ele, mas ao sabor das vontades e conveniências de cada um. O Papa não é a Igreja, mas apenas um membro dela, ainda que trazendo aos seus ombros a missão de confirmar a condição espiritual de todos os povos, na fraternidade e em comunhão com os Bispos que laboram no palco de operações das Dioceses. Ninguém, mesmo incumbido das tarefas de responsabilidade elevada, estará isento de episódios ocasionais e espontâneos, tendo mais a ver com a curiosidade e naturalidade infantil do que propriamente a simbolizar vaticínios e profecias, ainda quando se lhes confira um alcance nessa perspectiva. Apesar de tudo e de todas as interpretações, é salutar aproveitar, como sinais do alto, as circunstâncias sucedidas, dando-lhes um significado aplicado às experiências de vida pessoal ou colectiva. Penso não incorrer em heresia se conceber muitos dos milagres como manifestações de estados de alma dos indivíduos embrenhados em circunstâncias especiais e peculiares. As crianças, neste aspecto, são executantes exímias e provocam situações imprevistas, por vezes, embaraçosas e a verdade das suas atitudes é deveras desconcertante. Para elas não existem problemas nem barreiras que compliquem a sua transparência. Lembro-me, a título de testemunho, daquela pequenita, de dois, três anos que, morando pertinho da igreja, ao Domingo, sorrateiramente, se escapulia da cama e da atenção da mãe, entrava de súbito na igreja, trajada de pijama, e vinha sentar-se nos meus joelhos, logo que apanhasse o momento oportuno e capaz. E aquele outro miudinho, com dois aninhos, que, sempre no início da homilia dominical, corria pela igreja acima, vencendo a resistência da avó ou da mãe e dos outros fiéis, fazia-me curvar para chegar ao meu pescoço e saudar-me com um efusivo abraço, abalando assim a distracção ou indiferença de alguns adultos. Estes e outros episódios apenas me fazem reflectir sobre quanta responsabilidade qualquer um de nós terá de assumir no encaminhamento dos mais pequenos que, com os seus gestos, nos interrogam a consciência sobre o seu papel futuro na sociedade. Por isso, acho não podermos atribuir importância desmesurada a determinadas manifestações, mas vê-las, sobretudo, como janelas abertas para um mundo de amanhã a exigir a correcta responsabilização de todos nós, hoje.
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