Memória de Cunhal
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Meu irmão Carlos era um camarada encartado. Depois da revolução de Abril, era ver quem arranjava mais anedotas, dichotes, picardias para se mimosear mutuamente. Discussões nunca as houve: eu sabia - o filiado no PCP. Ele sabia-me ferrenha PPD e a tolerância e o amor fraterno saltavam sobre tudo isso. Além do mais ele era superiormente inteligente e eu digamos que burra não era. Ambos nos formámos em Coimbra, ele em Direito, eu em Filosóficas, com notas muito jeitosas mas nem assim nos deu para entrar em diversas interpretações de Kant, Hegel, Sartre - aí, às vezes…, levámos a coisa na desportiva e sobretudo perdurando que os fortes laços com que o sangue e a admiração mútua nos uniam não fossem nunca minimamente deslaçados. Isto contado e recordado pelo centésimo aniversário que completou Álvaro Cunhal. Ao seu serviço, passava-me o meu irmão aqui à porta, quase sempre pelo anoitecer (vivia em Lisboa nessa altura) pelo menos uma a duas vezes por mês. Dás-me guarida esta noite, que sigo para Trás-os-Montes amanhã de manhã? Entra, mano, mas pelo amor de Deus deixa lá fora essa maleta preta que deve vir cheia de bombas! Aquele sorriso tolerante e malicioso do Carlos!… Traz lá o trambolho da pasta, mas não a ponhas junto à parede encostada ao meu quarto! Um dia, apareceu à hora de almoço, com o filho mais novo que teria por esse tempo uns dois aninhos. “Posso sentá-lo em cima da mesa? Olha para ele, Luisinha, nesta cara laroca deu o Cunhal ontem à noite, lá no partido, uma data de beijos"! Viro costas até ao armário dos remédios, do outro lado da casa. Volto com um algodão afogado em álcool nas mãos e começo a esfregá-lo freneticamente nas bochechas do garoto. "Apre que o teu filho ainda apanha uma infecção"! "Qual quê, o Cunhal é um senhor, o teu Sá Carneiro é que precisava de mais uns palmos”… Em outra ocasião, em que pediu dormida para ele e para a pasta preta diz-me que sai muito cedo lá para Trás-os-Montes e, por isso, não acorda ninguém, mas que passa para baixo a horas mais cómodas dois dias depois. Penso eu, um pensamento recorrente, mas que irá ele fazer a Trás-os-Montes?! E logo, pragmática: Segues então para Lisboa? Se me levasses… Preciso de lá ir. Que me levaria se estivesse sozinho. Mas que tinha vindo no carro do partido com mais dois camaradas. Paciência… “Não, espera aí! Vou telefonar aos gajos, se eles não se importarem…". “Não se importavam, era da melhor vontade, só tinha de baixar a cabeça quando atravessásemos uma cidade importante. Corri a fazer a maleta cor-de-laranja de então e aí vai “esta reaccionária do caneco". Pior que isto nunca dele ouvi - no carro do partido com três ilustres camaradas, mano ao volante. Nas Caldas da Raínha, saíram a tomar um café, deviam ser onze da manhã. "Trazemos-te um bolinho?? Uma bola de berlim, faz favor. Mantive a cabeça baixa e só a levantei na estrada nacional minutos depois. Diz-me um dos meus camaradas de viagem estendendo-me o “Diário” jornal então conotado com o PC". Quer entreter-se a ler?". "Credo! eu costumo ler é o "Diabo"! - jornal conotado com as direitas. Diz o Carlos lá da frente para o camarada que se sentava atrás, ao meu lado, “eu não te avisei? Esta minha irmã!” Chegámos a Lisboa sem mais contratempos e acho que todos bem dispostos. Doutra vez: Gostava que viesses comigo à Festa do Avante, vens? Apresento-te ao Cunhal". “Deus me livre e guarde! Se me distraía, como da outra vez com o “Diário”, ainda saía de lá para a morgue! Quando morreu Sá Carneiro, ainda a televisão não tinha dado toda a notícia, já o telefone tocava no meu átrio da casa. É o Carlos! Pensei. Era e lá fui atendê-lo a chorar baba e ranho. “Luisinha, deves estar triste…mas olha que carneiro assado não é mau… Desliguei imediatamente o aparelho. Não tinha tido tempo de voltar ao sofá, quase nem de me assoar, e ei-lo que chama de novo: "Desculpa, desculpa, desculpa, foi de mau gosto!! Um beijinho.” Muitas e muitas recordações destas e doutras coisas. O Carlos está sepultado em campa rasa no cemitério de Grândola, onde moreu aos 66 anos, ao serviço da comunista Câmara Municipal de então. Que saudades, meu irmão, que saudades! n LUÍSA MELLO
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