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Confesso que me parece não ter prestado, alguma vez, a minha homenagem, pelo menos escrita e pública, a quem cavou em mim alicerces fundos e semeou neles princípios de uma educação cultural, moral e humana, bases de abertura para determinada vida consciente empenhada e sobre as quais ainda alimento recordações bem fortes. Todos gostamos, com certeza, de trazer à memória factos, tempos ou pessoas que marcaram indelevelmente as nossas actuações e conhecimentos experimentados na vida, ao longo dos anos a passarem sobre nós. Olhando para trás na busca de tudo quanto foi positivo, quem encontramos que tenha moldado a nossa silhueta, de modo a enfrentarmos as vicissitudes mais árduas da existência? Quem passou horas a fio sem mostrar ares de cansaço ou arrependimento de ter abraçado tal missão tão espinhosa? Estou em crer que para estas interrogações se aduzirão muitas respostas. Todavia eu, pessoalmente, quero evocar a figura de uma senhora que me aceitou, em cadeira levada de minha casa e transportando eu às costas a pobre e pequena sacola de serapilheira com alguns poucos papeis e uma lousa dentro, e me iniciou nos números e nas letras: a minha Professora. “Caí-lhe” nas mãos depois de “expulso” de outra escola, após um dia de experiência e por excesso de lotação na classe. Foram, depois, quatro anos de folia infantil, com muita exigência para a devida aprendizagem, umas quantas palmatoadas bem sonoras a corresponderem a outras tantas traquinices, feitas sem maldade e nem sempre pesando as suas graves ou leves consequências. Tempo marcado pelo respeito e acatamento das normas e das ordens concernentes ao trabalho e dever escolares. Actuações, aliás, reforçadas pela autoridade paterna como complementaridade no campo da educação relativamente às qualidades da personalidade e co-responsabilidade social futura. Quaisquer desvios seriam sancionados segundo os acordos estabelecidos, naturalmente, entre Escola e Família. Ninguém ousava, sequer, tentar pisar o risco. Na pessoa da minha Professora, de nome Lúcia, mulher de têmpera e vontade indómitas, mestra exigente, companheira e amiga, desejo render o preito da minha gratidão e respeito, extensivo a todos esses cabouqueiros daquela sociedade de então, fundamentada nos valores humanos, sociais, morais e até espirituais, conducentes a vida em comunidade, aberta, simples e séria. Mudam-se os tempos, ou antes, os indivíduos, autores de leis e ensinos, mudam estes tempos, conduzindo os mais novos de agora numa conduta desenfreada e sem rédeas, a causarem apreensão e instabilidade para os nossos meios. Provocam-se verdadeiras dicotomias entre Escola e Família quando aquela quer educar e esta impede de serem corrigidos cabalmente os que estão a entrar na vida, ou o contrário, a Família a querer e o sistema a não permitir. Muitos jovens acabam sem descobrir qual o outro rumo a tomar que não seja a rua e a libertinagem. Tristes são os nossos dias, fazedores de tantos monstros, de corpo direito, mas sem luz que os ilumine e oriente. Pobres construções alicerçadas sobre areias movediças que, muito depressa, vão desmoronar-se sem se vislumbrar quem as faça, corajosamente, levantar.
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