Agitágueda 2013
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Em 2007 escrevíamos assim: “Agitágueda - Um sucesso, dizem uns. Um fracasso, dizem outros!”. Colocados no centro da discussão e procurando não nos deixar influenciar, observamos o fogo cruzado de opiniões e com a isenção possível e a liberdade que muito prezamos, faremos um balanço daquelas noites, sabendo no entanto que, enquanto uns, obstinadamente aplaudem, outros fanaticamente criticam. E até as nossas opiniões terão a concordância de uns e a crítica de outros, conforme a cor dos seus olhos e a temperatura das suas paixões. Indiferentes ficamos nós a quem goste ou não da nossa opinião porque, impermeáveis a elogios fáceis como a inflamadas críticas e com a frontalidade que nos é característica assumimos de corpo inteiro a responsabilidade de afirmar que, os acontecimentos à beira do rio nas noites do “Rio Povo” foram um facto que fará história, não só porque se apresentaram fragmentos esquecidos de uns e desconhecidos de outros: Águeda ribeirinha de que falam os nossos poetas e onde, do abraço que este povo deu ao rio germinou cidade. Ali se escreveram as páginas mais brilhantes da riquíssima cultura popular, também erudita, das nossas gentes e, independentemente de concordarmos ou não com alguns momentos menos bem conseguidos nos pormenores de encenação do “Rio Povo”, fomos transportados a um passado esquecido, mas não morto. Enquanto houver rio a história não se apaga. E ele, o rio, ali está, tão belo quanto mal tratado pelo desleixo, pela irresponsabilidade de todos: autarcas, povo anónimo e com a maior responsabilidade para os industriais que foram os que mais poluíram! O espetáculo do Rio Povo só nos mostrou as coisas belas e perdeu uma oportunidade de alertar as consciências para o mau trato que se dava ao rio. Mas o que se fez foi importante porque, brincando, mostraram aos jovens a vida de há cem anos. E isso foi possível com a participação das coletividades culturais da Casa do Adro que mantêm entre si um perfeito entendimento (Orfeão de Águeda, Orquestra Típica, Cancioneiro) e demais coletividades participantes, coordenados pela d’Orfeu. Estão de parabéns, como de parabéns está a CMA que disponibilizou os meios necessários ao “Rio Povo”, um espaço do Agitágueda. Este apontamento regista para a história um êxito a juntar às glórias do passado. Se continuarmos a proporcionar aos aguedenses espetáculos de qualidade, talvez os vindouros possam falar, não só da Águeda dos ferrolhos e das fechaduras, mas da, Águeda Cultural.
Passaram seis anos desde que este texto foi escrito, e é tempo de fazer o balanço às mudanças operadas em Águeda neste período. E, mesmo antes de iniciar o roteiro pelas principais transformações, afirmamos que, pelas melhores razões, Águeda está irreconhecível! Na entrada do Norte, o jardim Conde Sucena junto ao hospital dá as boas-vindas aos turistas e transeuntes que arribam por aquele quadrante. E a renovada harmonia do local dá o mote para o que verificamos a seguir. Uma cidade que, finalmente, se encontra com o calendário do tempo, apostando na modernização, cuidando do seu aspeto apesar de ser ainda evidente algum desleixo vizinho ao jardim onde os buldózeres deviam já ter repetido a operação realizada na histórica “casa do engenheiro”, no Largo de São Sebastião. Impõe-se lembrar aos proprietários desleixados que não têm o direito de prejudicar a imagem da cidade pelo simples prazer de satisfazerem a casmurrice que alimenta o seu ego, e agir em conformidade com o interesse do Burgo. Na Avenida dr. Eugénio Ribeiro e suas envolventes vê-se algo inédito por estas bandas: Fotógrafos, a registar a beleza que desponta naquela área, linda, que começa a dar a Águeda, um ar citadino. Todavia, ao passarmos pelo monumento ao dr. António Breda, sentimo-nos como ele que de cima daquele horrível mausoléu olha para o chão de cabeça inclinada, envergonhado e triste. Deus saberá no que pensa. Se nos calhaus dispostos ao longo da avenida bons para escaldiçar o rabiosque no verão e congelá-lo no inverno, se nos comerciantes que protestam pelos prejuízos, dizem, causados pelas obras. Mas se assim fosse, onde não há obras não haveria queixas. O problema é transversal a todos, com obras ou sem obras, e está na crise! Quando meto obras em casa durmo no palheiro. Elas são como um parto: Desconforto, sofrimento, incertezas e… eis uma vida nova! Mas no percurso até à baixa, estoicamente contornamos as dificuldades provocadas pelas obras na praça do tribunal e arredores e, por trancos e barrancos chegámos à zona ribeirinha, berço da cidade que conserva no coração dos nostálgicos um passado distante de barcos enfeitados que zarpavam rio acima da Murtosa ao São Geraldo, o cais das laranjeiras a dar-lhes as boas vindas e em fundo, a musicalidade dos pregões das sardinheiras a ecoarem pelas vielas do Barril à Venda Nova. Do alto do campanário soavam as badaladas que davam início à merecida pausa na azáfama do areal. E os sons monocórdicos produzidos pela nora em torno do eixo, antes de se perderem entre a folhagem dos salgueirais, embalavam as lavadeiras que, salpicadas de gotilhas desprendidas dos alcatruzes, eram acariciadas pelo sussurro das correntes enquanto os mirones, a coberto dos milheirais, espreitavam as coloridas roupas a corar ao sol, antes delas recolherem à intimidade das donas. Tudo isto, magistralmente cantado por Adolfo Portela, Pedro Homem de Melo e Manuel Alegre quando esse ato estava já preste do fim. Acelerava-se o desenvolvimento industrial e os barcos cediam a sua missão aos camiões, as máquinas substituíam as lavadeiras, os detritos da população conspurcavam o rio e os peixes cediam, tragicamente, o lugar aos produtos tóxicos que envenenavam as águas enquanto a piscina no leito fluvial e tão bem referenciada na obra do poeta, ia sendo abandonada até ao final esquecimento! O rio era o mal-amado e o empecilho a quem queria passar à outra margem, transformado em esgoto e lembrado apenas, mas com honras de primeira página quando enraivecido galgava as margens, deixando os lavradores, os comerciantes e os habitantes da baixa em pânico. Enquanto nós, acordávamos da monotonia de dias iguais e fruíamos da adrenalina que subia tão alto quanto a subida das águas. Para uns era uma festa, para outros, o desespero, mas razão suficiente para Águeda ser notícia de abertura e, ainda que pelas piores razões, não faltava quem disputasse um lugar na frente dos holofotes. E, às vezes, na esperança da primeira fila vinham de longe! Com as cheias muita porcaria era arrastada até ao mar, mas para trás ficava ainda o suficiente para nos privar de mostrar o rio aos visitantes. Não dava, seguramente, um bom postal nem seria recomendável mostrar peixes à tona em agonia ou já mortos, em consequência das descargas tóxicas feitas pela indústria da época. Felizmente que o alarme tocou e a mentalidade dos industriais cresceu. Alteraram-se as regras e o rumo foi invertido, creditando à cidade uma imagem higiénica capaz de nos restituir o orgulho de sermos Águeda. No Rio e sua envolvente desenha-se a sala de visitas do futuro na cidade com a praça 1º. de Maio, arejada e linda, apetrechada para satisfazer a população de todas as idades. Lá se faz cultura, arte e desporto, se come, se bebe e se palra. Contudo, é imperativo que se feche o círculo com as correções que se impõem! As atividades que lá se realizam dão razão a quem teve coragem para apostar naquele projeto rotulado pelas más-línguas de megalómano, mas que é, afinal, o que Águeda precisava para entrar no mapa dos acontecimentos. O Agitágueda parece ser uma boa aposta e, verdade seja dita, não só não se viam turistas, e muito menos a fazer fotografias, como nunca se tinha visto tanta gente junta. A cidade estava estagnada e, com o passado em agonia, a transformar-se numa quimera! Felizmente que, com a inversão feita nos últimos tempos e a luta contra o marasmo instalado, começa a dar os seus frutos. Já há turistas, não apenas nas lindas ruas dos guarda-sóis e seus belos efeitos refletidos na calçada, mas também a parte alta é motivo de atração e curiosidade! Estamos certos que o novo canal e a ilha que nasce com ele dão razão ao poeta de Águeda-a-Linda. O rio de que chegámos a ter vergonha, começa a ser motivo de orgulho e um ícone procurado por fotógrafos e artistas. E como a água é fonte de vida, Águeda viverá a pujança do seu povo, na beleza do seu rio! n a.a.silva
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