Seria fácil evitar lutas laborais
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Com a franqueza e lealdade que objectiva a minha vida, sou forçado a afirmar, mais uma vez, que, num Estado a que chamam democrático, não há razões válidas para o direito à greve.
Porque: Em democracia, todos são iguais perante as Leis e, as infracções a estas (conforme os delitos )são castigadas com penas que em Portugal podem ir até vinte e cinco anos de prisão ou coimas que chegam a muitos milhões e, quem impõe esses castigos, são os Juízes nos tribunais competentes. Conjugando todos estes factos, de todos, aliás, mais ou menos conhecidos, é lógico este raciocínio: se os grandes conflitos podem ser arbitrados pelos tribunais, porque razão não podem sê-lo os diferendos laborais? Perante estas realidades incontestáveis, é lógica a dedução de que a greve é da conveniência dos políticos, de acordo aliás, com o adágio «dividir para ser mais fácil reinar”. Chegados a estas conclusões, parece que não deixa dúvidas (quando se faz uma séria comparação) das duas situações referidas no segundo e terceiro parágrafo, a quem devemos atribuir a culpa de tão grandes prejuízos?. A resposta é tão fácil que não é necessário dá-la! Imagine-se o que perde a economia com tantos milhões de dias inutilizados para o trabalho mas, pior ainda é o clima de constante conflituosidade em que vive a sociedade, com as várias facções em luta quase permanente e, com a agravante de termos uma comunicação social que parece adorar estes fatalismos, pois lhes dá tanta evidência que nos deixa revoltados até porque, normalmente, são os que menos razões têm, quem mais reivindica! Quem pensa nos interesses da sociedade (operários incluídos e até beneficiados) tem fundamentada opinião de que um Tribunal Laboral, constituído por Juízes especializados - e com especialização que seria feita só depois de dez anos de prática em Tribunais de Trabalho - assessorados por representantes dos sindicatos e associações patronais, daria sentenças mais de acordo com a realidade do que as que resultam desta luta, eivada de egoísmo! Atente-se no exemplo actual da greve dos professores que é, sem dúvida, uma das classes mais privilegiadas da sociedade portuguesa, como toda a gente menos mal informada sabe, e eu, particularmente, porque tenho na minha família professores do ensino primário até ao universitário. Repare-se nas várias semanas de negociações e nas horas que as televisões e o resto da comunicação têm consumido com entrevistas e em afirmações que não dignificam ninguém mas, menos ainda, os senhores professores que as proferem, por ser evidente a sua falta de razoabilidade, comparando a sua situação, em relação ás outras profissões. Finalmente, tornando inútil todo este trabalho, esses senhores resolvem fazer greve exactamente na altura dos exames que, se não se realizarem, vão prejudicar tantos milhares de jovens e suas famílias; aliás, haja ou não exame, este clima de tensão não deixará de provocar danos psíquicos irreparáveis nos alunos. Sempre tive o maior respeito e até admiração por uma profissão da qual depende o futuro de todos os jovens, que são simultaneamente, o futuro do País e até do Mundo, admiração vem dos meus tempos de escola, quando ela era exercida como autêntico sacerdócio! Todos sabemos que a evolução social criou objectivos diferentes e que o homem de hoje se tornou ( genericamente) muito mais egoísta, sobretudo nas classes mais evoluídas, ignorando a maioria dos que assim vivem, as dificuldades daqueles que, mesmo executando tarefas difíceis, pouco mais auferem do que o suficiente para fugirem á fome. Os sacrifícios exigidos a quem trabalha nos tempos actuais, são tão mais fáceis que não têm qualquer paralelo com os da primeira metade do século passado mas, apesar disso, ninguém parece contente, aliás fazendo jus àqueles que pensam que, o homem é o ser mais insatisfeito sobre a terra. Estou convicto de que a insatisfação (porque Divina), terá uma face menos boa mas, em contrapartida, é indispensável, para o progresso porque é ela, quem o faz caminhar; como tudo na vida, a insatisfação tem de ser doseada pelo «bom senso» qualidade (bom senso) que julgo ser, nesta caminhada que é a vida, o estádio humano em que o homem se aproxima do «Ideal». Infelizmente a pressa com que realizou aquilo a que chamamos sociedade moderna (o progresso exige meditação), não deixou ao homem esse tempo e construiu-se uma época de injustiças, porque todos querem chegar aos seus fins rapidamente, sem fazer caso dos atropelos que deixam nessa caminhada que, em muitas situações, parece uma corrida de loucos. O homem parece ter o propósito de esquecer que o seu destino é ter de viver em sociedade e ignora, ou finge ignorar, que essa convivência não terá valimento mínimo, sem a prática da solidariedade! E porque a greve actual é dos professores e eles até têm a especial obrigação de ensinar este principio fundamental, queremos deixar-lhes este sincero apelo: SENHORES!, a vossa profissão é de tal importância que a julgo impossível de ser executada por cidadãos cujos sentimentos não se aproximem do ideal, fazendo dela um exercício de pleno SACERDÓCIO. Por todas estas razões, pode afirmar-se que ela merece o respeito das coisas divinas; não é passível de ser comprada ou vendida no leilão das feiras mercantis, nem as suas obrigações elementares são negociáveis! Essa missão sacrossanta, perde a dignidade própria, se o seu exercício não for consubstanciado em verdadeira vocação e acompanhada do indispensável “breviário “. EXERCEI-A o melhor que souberdes, procurando para Ela um continuo APERFEIÇOAMENTO, com o sentimento de que, nesta crise que pode destruir a Pátria, todos nós devemos sacrificar-nos e não sois vós, quem têm mais razões para insatisfação; lembrai-vos de tantos milhares de cidadãos que, mesmo trabalhando duramente, mal ganham para matar a fome, dos velhos e doentes que nem os medicamentos indispensáveis podem comprar e de tantas crianças que estão vivendo miseravelmente! Termino, afirmando, sob palavra, que a última parte deste escrito foi de tão penosa meditação, que teve por companheira a maior expressão da dor…, as lágrimas dos que sofrem com o egoísmo dos homens e que, para cúmulo, fazem recair os seus efeitos, sobre aqueles… a quem deviam amar! n ALMEIDA ROQUE
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