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Mãe

por Manuel Armando (Padre) em Abril 30,2013

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Para o dia em que muitos olham aquela mulher que deixou de existir, para si mesma, quando sentiu dentro de si uma vida nova posta no seu seio pela vontade de Deus e por um amor que, mesmo parecendo humano, foi espelho de um amor divino, aqui deixo com simplicidade e carinho para todas as mães que contemplo na minha própria mãe.

Mãe,
Vejo nos teus lábios um doce e largo sorriso,
Silencioso, grato e profundo
Quando, naquele momento preciso,
Sentiste no teu seio o meu pequenino ser
E, numa prece, ao Deus de imensa bondade
Pediste que, por caridade,
Não me deixasse morrer
Antes de contemplar a luz do mundo.
Revejo com renovada emoção
Os teus lábios em alegre oração
De gratidão
Por uma frágil e imperceptível vida
Que, para generosa missão,
O Senhor pôs na liberdade da tua mão
E, no teu ventre, foi concebida.

Contemplo os teus lábios que cantaram
Enquanto, de alegria, os olhos choraram
Aquando do meu primeiro vagido.
As dores e ansiedades passaram,
As incertezas e temores calaram
Pois eu, teu filho, havia nascido.

Ouço agora teus lábios, preocupados,
Perguntarem ao Deus Criador
Porque permitia a dor
A um ser indefeso e sem pecados.

Escuto teus lábios que educaram meu crescer;
Tanto beijaram como repreenderam também.
Caminhava seguro e o tempo parecia correr,
Guiado, desde cada amanhecer,
Por tua amorosa voz de mãe.

Observo teus lábios num sorriso aberto,
Em admiração reconhecida
Pela pessoa, ainda sem rumo certo
Mas que, por tua livre generosidade
E entrega à divina vontade,
Geraste para a vida.

Relembro teus lábios de autoridade e amor,
Dando as ordens ou meigos conselhos
Rumo ao conhecer Aquele Deus e Senhor,
Dito presente na imagem e semelhança
De todos, crianças, jovens e velhos,
Irmanados na procura da fé e da esperança.
Quero reter na minha mente,
Com eterna estima e gratidão,
O que viram os meus olhos
Quando, muito serenamente,
No meio de dificuldades e escolhos
Teus lábios sibilavam ardente oração.

Jamais desejo olvidar
Teus lábios já enfraquecidos
Que beijaram com ternura e ardor
E, como fogo posto,
Num contínuo recomeçar
Avivaram meus sentidos,
Ateados no meu rosto.

Diante de mim o teu olhar,
De lágrimas marejado,
Acompanhando teus lábios
Com conselhos seguros e sábios
Para que nunca me deixe enlear
Nos braços do pecado.

Nos momentos derradeiros, deveras angustiantes,
Entre sufocos de comoção ou tremor,
Tentei calar aqueles penosos instantes,
Com as minhas nas tuas mãos cheias de amor.
 E, quando teu olhar, consciente e sereno,
Parecia penetrar já os Céus,
Legando a este mundo terreno
A ternura  
E doçura,  
Que não mais deverei esquecer,
Os teus olhos cruzaram os meus
E teus lábios ainda puderam dizer:
- Meu filho, adeus!

n P. MANUEL ARMANDO
(Do meu livro “TEMPO COMUM NO OLHAR DA ESPERANÇA”)


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