12 de Abril homenageou Professor António Gomes
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Por volta dos meus 15 anos, assisti a um concerto onde é hoje a praça Dr. António Breda, em Águeda, e fiquei boquiaberto com o que vi e, principalmente, com o que ouvi, apesar de, àquele tempo, como ainda hoje, os meus conhecimentos nesta matéria serem muito limitados e de as Bandas, na nossa região, todas elas, não primarem pela qualidade. Nem na forma nem no conteúdo e era para essa dimensão da escala que tínhamos os nossos sentidos afinados. Até àquela noite, eu nunca tinha ouvido nada muito diferente daquilo que se fazia por cá e, à falta de melhor informação, pensava que éramos os melhores e que a melhor música era mesmo aquela que por cá se fazia: uma miscelânea de colcheias, tremoços e vinho, numa má combinação com os respectivos resultados no som e na imagem. Era o trivial nesta região, como se fosse uma fatalidade! Mas, naquela noite, havia de alterar--se tudo e quando, no fim do concerto, regressava à minha choupana, meditava no que vi e, principalmente, no que ouvi. E o silêncio do percurso só era de quando, em vez, interrompido por uma brisa outonal que roçava nos pinheirais do caminho, fazendo ressoar nos meus ouvidos uns sons maravilhosos, que eu pensava ser uma alucinação, ou então, coisa dos deuses! Mas como se o concerto teimasse em não ter fim e já na escuridão do meu quarto eu, com a mais pura lucidez, via os elegantes movimentos do maestro, perfeitamente enquadrados com os temas que constituíam a obra, numa simbiose gestual e auditiva que fundia uma amálgama de timbres, em sons e cor, produzindo uma harmonia etérica, escorrida por entre os dedos dos artistas em palco. E eu perguntava-me: quem será aquele exuberante manejador da batuta, que transborda de sapiência, na expressão da sua mestria…? Era a condução firme do experimentado comandante, que vai para a peleja, sempre, de olhos postos na vitória: com responsabilidade, sem exibicionismos! Com confiança, sem palhaçadas! Na sua postura, estava expressa a competência e o saber do Professor Gomes, à frente da Banda da GNR do Porto Em consequência disso, e nesse momento, nascia em nós a esperança de ver um dia o paradigma da música na nossa região…, mudar. Mas, como? Era a questão, pois se por cá a música era tão rudimentar, incipiente e, inconscientemente, tão mal tratada e com tão pouco para dar?! Mas, a partir desse concerto, como se cumpríssemos uma penitência, sonhava, sonhava…, mas sempre com o travo amargo do acordar e ter a desilusão da realidade: não passava de sonho…, estava tudo no seu lugar…, o tempo passava e nada mudava! Foi então que tive um pesadelo. Eu encontrava-me no meio de uma revolução. Revolução que não ia mais, ter um fim…, mas que, vinte e cinco anos depois do famoso concerto da GNR, transformava, radicalmente, a Banda de Travassô com repercussão em todo o concelho, na região, no país e para lá dele. Não foi fácil, porque, apesar da concordância cá dentro, tivemos que, lá fora, lidar com mentalidades retrógradas, maldosas e empedernidas e, se em todas as mudanças, há dificuldades..., a mudança das mentalidades é a mais difícil de conseguir. Tudo isto eram argumentos que emperravam o processo. E enquanto os anos corriam a revolução não passava do sonho, e nós perdíamos o tempo, a força anímica, o entusiasmo. Temíamos perder também a esperança e que tudo continuasse como antes. Mas eis que a revolução aconteceu mesmo: - Agora …, Mestre… já havia, faltava tudo o resto. A única coisa que tínhamos e em a abundância, diga-se, em homenagem aos músicos dessa época, era a união entre todos. União que gerava uma irresistível energia colectiva! O resto, estava tudo por fazer e era nossa, agora, a responsabilidade, sendo certo que teríamos de contar com o contra-vapor dos velhos do restelo, com as suas venenosas farpas de arremesso, tentando destabilizar o sentimento de mudança que reinava nesta casa e parar a revolução. E as críticas eram tão severas, quer na forma, quer no conteúdo, em relação do processo em marcha. Era este o tema do dia! À falta de outros argumentos, respondíamos com a aceleração do processo, socorrendo-nos do conselho que um gigante da música do século XVIII deu aos que faziam severas críticas à revolucionária forma de escrita da terceira sinfonia ao que Haydn respondia: "Vocês vão ter que se calar, ou terão muito que criticar". Era a mudança reconhecida por um ícone da música clássica que assim falava: "Depois de Beethoven, a música não mais será a mesma!". Esta teoria funcionou como lição e serviu de carapaça aos ataques que visavam atingir-nos e, se possível derrubar-nos. Mas a união tornou-nos, suficientemente fortes e imunes, quer aos impulsos dos detractores do nosso trabalho, quer ao veneno que saía de línguas perversas. E, como nada nem ninguém faz melhor justiça que o tempo, ele veio dar-nos razão e o que tinha sido motivo de crítica até à chacota, passou a ser modelo a seguir por todas, dentro e fora do concelho e com normalidade a 12 de Abril prosseguia na rota da sua amarga cruzada, almejando saborear o doce da vitória. Contudo, à medida que a fama crescia, estávamos mais expostos às dificuldades porque nós, os músicos daquela época, tínhamos, genericamente, recursos técnicos muito limitados e as exigências do maestro eram cada vez mais. Iam muito para lá das nossas capacidades técnicas! Impunha-se organizar uma escola que adestrasse os actuais músicos e criasse outros, sem vícios enraizados e sem maus hábitos e isso só era possível com professores credenciados, competentes e com espírito de missão para superar essa pecha. Era uma tarefa árdua, bem sabíamos, mas é aqui que entra o nosso saudoso professor Gomes! Com ele a liderar a escola, os músicos passaram a, tecnicamente, responder muito melhor às exigências do maestro da Banda, o João Neves, que não foi o idealista da revolução, mas que foi o grande general no terreno, àquele tempo, e que também, por isso, terá sempre um lugar muito especial nesta casa! Foram muitos os que contribuíram, decisivamente, para o que consideramos, o êxito e são esses, justamente que por aqui terem conquistado o lugar na história verão, em breve o seu dia vai chegar. O dia em que serão eles os eleitos para o escaparate da memória colectiva da 12 de Abril. Hoje estamos a homenagear o Músico e o Maestro…, o Professor e o Amigo! Mas diz a sabedoria do povo que por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher. Também é assim que eu penso! Logo, não queremos esquecer nenhuma dessas mulheres e aproveitamos o ensejo para, na pessoa da Dona Alice, companheira e amiga, conselheira e esposa do Professor Gomes, não só fazer dela a fiel depositária do título conquistado pelo marido nesta casa e hoje entregue, mas homenagear as esposas de todos os músicos presentes nesta sala e que são o símbolo do saber estar, do saber sofrer, do saber amar. Que assim seja enquanto houver esposas! n A. A. Silva
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