Quero um buraco para plantar um marmeleiro
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A ambição de décadas foi finalmente satisfeita com a inauguração do Parque Industrial de Águeda, um campo enorme que vai servir para a instalação de empresas que ainda vogam, ou de campo idílico para passeios de afogados com máscaras de oxigénio. O Gil Pedalais inscreveu mais uma vez o seu nome numa pedra inaugural, agradeceu à turba heterogénea que foi ao Casarão no dia marcado, empresários e consumidores, já poucos, fregueses de novas e velhas freguesias, em agregação ou desagregação, paroquianos de todas as idades e credos e, como não podia deixar de ser, a rádio, os jornais, a Águeda TV e os analistas de cafés, bares e capelinhas. “Foi titânico o esforço que fizemos, mas vencemos – afirmou, em alta voz e ufania, o presidente Gil Pedalais – sempre a pensar nos outros, nos industriais que homenageio e espero que eles me homenageiem a mim, principalmente em Setembro”. ”Para provar a nossa força e vigor, vou plantar um roble, carvalho americano, mas espero que as bolotas não sirvam para alimentar porcos...”, disse o presidencial autarca. O Zé Ricardo do Grés, presidente da AIA (Associação de Industriais Aflitos), sempre interventivo e oportuno, alisou a farta cabeleira com a mão direita, pegou, com a esquerda, na fímbria do casaco vermelho que trajava e disse ternurento, quase a chorar: “Tenho-vos zurzido com os meus escritos, mas agora agradeço a grande obra, com estas extraordinárias infraestruturas, que proporcionarão óptimas oportunidades aos associados da AIA. Para mostrar a minha confiança, vou plantar também uma árvore, um imbondeiro, e espero que, quando estiver a meio crescimento, estes terrenos estejam já completamente povoados”, disse Zé Ricardo do Grés. “Não tenha dúvida - asseverou o vereador João Piedoso – 25 lotes já estão vendidos para lojas chinesas. Já cá temos o Lidl e propostas para mais duas...”. “E também esperamos que voltem para cá os que daqui saíram para Oliveira de Frades, Albergaria e Oliveira de Bairro”, acrescentou o Jorge Enfermeiro. “Nem que tivessem rodas!”, ironizou o Beto da Arrancada. A Excelsa da Corga, por sua vez, avançou com um pinheiro de plástico na mão e disse: “Vou plantar aqui este pinheirinho de Natal e comprometo--me, enquanto for viva, a vir cá todos os anos enfeitá-lo com bolas, estrelinhas e fios dourados!”. Entretanto, surgiu à frente o Manuel Tampos de Espinhel, muito frenético: “Eu também quero um buraco para plantar um marmeleiro, que é o que me lembra quando ouço falar em agregações de freguesias. As varas sempre se aproveitam para alguma coisa!”. A certa altura, adiantou-se o presidente de Fermentelos, para, fazer um convite: “Para animar, revigorar e alegrar os empresários e todos os que aqui estão, convido- -vos para a festa da Queima do Judas, na minha terra”. Ao ouvir isto, o Mário Martírios, de Travassô, esbaforido, arrancou o marmeleiro que o Tampos acabara de plantar e, empunhando-o, gritou: “Não tem vergonha nenhuma, a queima do Judas é em Travassô, esse privilégio é nosso...”. “Não se zanguem por causa disso – amaciou o Celestino de Almada, tirando-lhe o marmeleiro – olhem que Judas a sério há em todo o lado, se se queimassem Judas a sério, a vender-se por 30 dinheiros, havia festa em todo o lado e nem era sequer preciso esperar pela Páscoa...”.
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