O pobre da sexta-feira
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Neste momento em que abro a sebenta para alinhar uma meia dúzia de parágrafos, o novo ano está a ensaiar os primeiros passos. Por uma simples curiosidade e para quem se interessa em saber, abro a agenda da minha vida para dizer que fui ao correeiro buscar um cinto que havia encomendado dias antes, para segurar as calças, claro. Isso pela razão simples de o cabedal para o mesmo ser mais rijo e eu não correr o risco de comprar algum, em loja do vende-tudo, que, por ser fabricado com material muito mole, se torne uma corda ou cordão roliço à volta da minha cintura. Até aqui, nada fora do comum. É evidente não ser assunto do mundo das fantasias. Contudo, para mim, será. Mas atentei num pormenor que não tinha pedido e que o artista resolveu apresentar, acrescentado à obra solicitada. Quando mo passou para as mãos verifiquei que o tal cinto estava cravejado de furos para ajustar a fivela, de um lado ao outro. Ainda pensei ser modelo próprio da casa e perguntei se eu estava a pensar correctamente. O correeiro, homem sagaz e experimentado na vida, com um sorriso malicioso e escancarado de um ao outro canto da boca, explicou a razão do procedimento. Disse-me então: “Isto, meu caro amigo, é adiantar serviço e evitar mais uma facturazinha… Não repara que, no princípio de ano, exigem a sua apresentação e também nos mandam apertar o cinto, cada vez mais e não se sabe até onde?!” Ficou-me a impressão de ele estar mesmo a mangar com a minha cara. Por delicadeza e dever paguei e desandei. O caminho de regresso tornou-se curto para fazer balanço (novo ano…) às medidas que, em cada e todas as horas, são comunicadas no sentido de nos comportarmos como burros de carga, fraca e pesada, e não contemporizarmos com as despesas, quiçá supérfluas, que vão ter de esperar até ao fim da crise cujo desfecho nem se vislumbra. Nós, “os santos”, já não acreditamos nas promessas dos “pecadores” que se sentam em assembleias e ministérios, receitando-nos narcóticos adormecedores. Compreendo que somos parte de uma sociedade, habituada já a viver muito acima da média das capacidades familiares ou de grupo, mas estimaria que as medidas de restrição tomadas atingissem todos em percentagens justas e equitativas. Por tudo quanto se vai testemunhando, deveremos voltar aos tempos do “pobre da sexta-feira”. Não sabem o que isso significa, mas eu aclaro em duas linhas. Nas épocas passadas éramos, em minha casa, oito irmãos pequenitos e havia um pedinte que “rezava às alminhas” à porta dos lavradores, nas redondezas. Estes, para não serem incomodados pela cantilena do esfarrapado e se verem livres dele, despachavam-no com uma côdea rapada da broa de milho que ele armazenava no saco de serapilheira, trazido às costas. Depois de uma semana gasta na safra, regressava a casa, na sua aldeia, à sexta-feira, se calhar, imagino eu, para chegar a tempo de, no Domingo, “ouvir missinha” em acção de graças por tanta generosidade recebida. Ora, naquele dia, sexta-feira, pela tardinha, parava habitualmente junto de nós e minha mãe comprava-lhe parte das côdeas recolhidas e assim, por uns centavos, era-nos proporcionada uma lauta refeição com o caldo de côdeas e cebola. Mas que bem nos sabia ao paladar e à fome! Por isso, ansiávamos sempre pela chegada costumada do “pobre da sexta-feira”. Não é meu intuito derramar lágrimas sobre as panelas da carne e cebola do Egipto mas, agora que não abundam os lavradores generosos de antanho, parece que começo a perceber melhor o sinal que o maganão do correeiro quis transmitir-me quando lhe comprei o tal cinto para segurar as calças. n PADRE MANUEL ARMANDO
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