Não sou nenhum agente imobiliário
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Depois das festas natalícias, ainda empanturrados de filhós, rabanadas e bolo de Santa Eulália, acomodaram-se nas cadeiras do salão nobre, os abnegados deputados do Clube, para mais uma sessão. “Espero – abriu o presidente Celestino de Almada – que ainda enlevados pelo espírito natalício, sejam serenos nas vossas apreciações e não se agridam com expressões feias, nem que pensem que elas possam vir nos jornais, com sublinhados. Não façam, ao menos hoje, o que se faz na assembleia de Lisboa”. “Mas como é que quer que haja calma e indulgência – gritou o Zé Oliva, levantando-se e erguendo a mão – se o executivo comete atropelos de toda a casta, por exemplo, nos terrenos do Pólo Industrial do Casarão? Compraram aqueles terrenos, sem ouvir ninguém, por quatro vezes mais do que valiam, mal localizados e agora ninguém os quer!!!”. “Mas afinal, quem é que está a tratar de vender aquilo?”, perguntou o Heitor Carapuço – se tivessem lá algum barato, não me importava de ficar com ele... parece que nem saneamento tem!” “Eu não vou montar nenhuma banca para os vender – respondeu o Gil Pedalais – não sou nenhum agente imobiliário... mas vou lá mandar colocar umas casas de banho e, se me aborrecerem, estendo para lá a pista de aviação”. “Mas há outras coisas que nos ouriçam e nos indignam – interrompeu o Alberto Marquês – a mim e ao partido em que milito e ao Benfica, meu clube do coração... Reparem no que fizeram ali na avenida, transformaram uma alameda embelezada num carreiro de cabras...”. “Isso é ignominioso – abespinhou-se o Pedalais - é preciso não ter a mínima noção de urbanismo, o centro das cidades é para as pessoas andarem à vontade, sozinhas ou a passear os cães de estimação... e a fazer compras nas lojas”. “E agora que estamos todos reunidos – interrompeu o António Martírios, dos populares - quero que me esclareçam o que é a Viasubria, que não é nada sóbria, pelo menos a receber tanto dinheiro do Clube!”. “Pelo nome e pelo que dizem, parece que terá por objetivo fiscalizar as obras que são feitas nas estradas municipais e nos passeios – opinou o António Vouzela - mas dizem que alguém está a lucrar com isso!”. “Pois, pois, essa Viasúbria ou Viarúbria ou Poucosóbria não passa de uma prebenda para alguém da cor do poder”, acrescentou o Hilariante Santos. “Tem toda a razão - continuou o António Vouzela – tantos técnicos que o Clube para aí tem que poderiam fazer essa fiscalização...”. “Os nossos técnicos credenciados e de alta sabedoria estão a fazer o trabalho que consideramos mais valiosos – respondeu o Gil Pedalais – até peço para eles uma salva de palmas!” E assim terminou a sessão, com uns a bater palmas enquanto outros pateavam.
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