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Um povo resignado e dois partidos sem ideias

por António Silva em Janeiro 02,2013

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Guerra Junqueiro escrevia assim, em 1896:
Um Povo Resignado e Dois Partidos sem Ideias. Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.
(sic)

Mais de 60 (sessenta) anos depois, José Gomes Ferreira, advogado, diplomata, poeta e compositor, num grito de revolta pelas injustiças que se abatiam sobre o povo, deu forma a este sugestivo poema a que Lopes Graça com uma deliciosa composição, deu vida.
 
Acordai/acordai/homens que dormis/a embalar a dor/dos silêncios vis/vinde no clamor/das almas viris/arrancar a flor  que dorme na raíz

Acordai/acordai/raios e tufões/ que dormis no ar/e nas multidões / vinde incendiar/de astros e canções/as pedras do mar/o mundo e os corações
Acordai/acendei/de almas e de sóis/este mar sem cais/nem luz de faróis/e acordai depois/das lutas finais/os nossos heróis/que dormem nos covais /Acordai!
(sic)

Era um sinal + e o retinir das consciências: Mas de pouco valeu pelas razões tão bem expressas pelo Guerra Junqueiro

Hoje, a única diferença é que há mais partidos, logo, mais uns quantos inúteis imbecis, candidatos ao gamelo, à espera da oportunidade de se juntarem à camarilha do poder para mais depressa esfolarem o borrego que já foi sacrificado e se sentarem à mesa do orçamento. Só falta mesmo tirar-lhe a pele!
Como se pode entender, a não ser por uma endémica inercia de todos nós, que um povo com mais de 850 (oitocentos e cinquenta anos) de história, ainda não tenha atingido a maioridade para se governar por si próprio? Um povo de bravos homens que, no desconhecido, procurou um mundo novo que lhe diziam estar para lé do mar? Um povo que ajudou a fazer a história da velha Europa. Todavia, um povo que
nunca se soube governar, nem mesmo quando às nossas costas
marítimas chegavam barcos
carregados de ouro das
possessões ultramarinas?
Sempre, e hoje mais que nunca, somos governados pela incompetência de uma garotada sem vergonha. Arrogantes e vaidosos quanto baste: E nós continuamos imbecilizados e a dormir.
2012-12-30 n a.a.silva

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