A morte é Natal fecundante
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Buscam-se muitos modos e razões de celebrar o Natal, a Incarnação daquele Deus que ousou descer a uma condição terrena e elevar o Homem para o Alto. São as luzes sem Luz, as prendas sem oferta, bonecos sem coração, gestos sem sentido profundo, fumos sem fogo, anúncios sem conhecimento nem verdade, encontros à mesa sem comunhão e sem família, dores sem alento, morte e luto sem vida. Em suma, um Natal sem Alguém nascido. Uma manjedoura com muita palha e nenhum grão. Uma celebração sem o aniversariante Jesus. E cada vez mais se agudiza tal situação, materializada por uma crise económica que arrasta atrás de si a inoperância de valores morais e, sobretudo, espirituais. Em nome do Homem e da sua elevação, atropelam-se as coisas mais elementares que, esquecidas ou entregues a menor apreço, se perdem quando deveriam servir de guindaste a erguer os desprotegidos ou quem ainda está a despertar para o realismo de uma temporalidade que, sendo agora menosprezada, jamais fará qualquer mossa naqueles a quem, de outro modo, abriria perspectivas de utilidade da vida e seus atributos. Neste momento, isto parecerá um arrazoado fora de direcção ou expressão louca de paranóia, mesmo passageira. Todavia, estou a atentar numa conversa breve que entabulei com uma criança quando fui, num estabelecimento de ensino, ouvir e absolver, em nome de Alguém, os cândidos pecaditos daqueles que vão entrando na vida pela mão sei lá de quem. Fora do âmbito sigiloso, perguntei onde vivia. Indicou-mo. “Ah, és então da terra daquela menina que foi atropelada e morreu…”. “Sim, disse-me”. Nós conhecíamo-nos muito bem e tivemos muita pena dela. Já rezámos, em conjunto, por ela”. Também eu continuei: “Já passei, várias vezes, pelo local onde aconteceu o acidente e tenho elevado a minha prece a Deus como acção de graças por alguém que teve passagem breve pela terra e que, de certeza, está na felicidade”. O miúdo acrescentou: “Como era nossa companheira de Catequese, a mãe dela foi lá estar connosco a dizer-nos que sentia muitas saudades mas que, ao mesmo tempo, estava feliz porque a sua filhinha morta tinha dado vida a três outros meninos”… Na verdade, os pais acederam a que os órgãos da sua querida filhita fossem doados para quem deles precisasse. Não conheço tais pais, nem isso importa, mas curvo-me em humildade perante o seu luto e dor e reverencio a sua coragem e caridade. E louvo a lição daquela mãe, banhada em sofrimento, mas com a lucidez de testemunhar àquelas outras crianças que a morte pode ser fonte de vida abundante. Física, mas sobremaneira, espiritual. A minha solidariedade, o meu preito e a minha gratidão pela prova e exemplo da sua fé. Afinal, onde, para quê e porquê procurar, noutro algures, exemplo de sentido mais pleno para um Natal do Cristo Jesus, cujo nascimento trazia em si o rumo da morte produtora de vida fecundante? n Pe. MANUEL ARMANDO
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