É notável a ideia de fazer um presépio de pão!
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A Associação dos Secos e Molhados de Águeda promoveu um concurso de montras na Rua de Cima e os comerciantes aprimoraram-se a decorá-las com motivos natalícios. O Zé do Candeeiro enfeitou a montra com uma travessa a fumegar de bacalhau cozido com batatas e nabiças, a Manuela dos Cacos pôs na montra uma abóbora menina e um braço de cebolas, o Paulo Rinodente, uma canga com o emblema do Sporting, o Melro da Diamante um chuveiro de neve, o Vasco dos Vestidinhos um cesto de castanhas, etc... Porém, a montra que mais atenção chama, perante a qual as pessoas param com um misto de comoção e enternecimento, é a da Pastelaria Trigueiral, onde está exposto um presépio, ao que parece, cujas figuras são moldadas em massa de pão. A Luisinha do Mel estava sentada na esplanada a tomar um chá de camomila e depois de olhar atentamente para o misticismo daquele conjunto harmonioso, disse para a sua amiga Lili: “Num tempo dominado pelo materialismo impiedoso, que embota o espírito, é de louvar e engrandecer quem se lembra de uma coisa espiritual, sobretudo nesta época de Natal....”. “Tens muita razão – comentou a Lili – é notável a ideia de fazer um presépio de pão e o seu criador, com aquelas figuras estilizadas, demonstra muita sensibilidade e imaginação, devia até ser conhecido... isto foi feito por um artista plástico, neste caso plástico-farináceo, e não por um padeiro qualquer!”. “Desculpe, mas aquilo que ali está representado é uma blasfémia – intrometeu-se o Padre Luís Vaz, que estava na mesa ao lado – os hierarcas da Igreja e o próprio Papa, grande teólogo, afirmam que o Menino Jesus não pode ter nascido numa manjedoura e muito menos no meio de uma vaca e de um burro!!! Nasceu na Nazaré, que fica num deserto que só tinha areia...”. “Ó senhor prior, desculpe lá – interrompeu o Braz dos Kiwis, que estava a escrever um poema histórico na mesa do lado – a Nazaré não é deserto nenhum, é uma praia bem bonita e tem uma serra com uma escarpa... e até lá houve o milagre do D. Fuas Roupinho que tinha caído ao mar se não lhe tivesse aparecido Nossa Senhora....”. “Ó homem, não é essa Nazaré perto de Peniche, é uma que fica na Galileia – continuou o Padre Luís Vaz – e também não havia ovelhas nem pastores, nunca ninguém viu um rebanho a pastar no deserto... quem imaginou este cenário foi S. Francisco de Assis que nunca esteve na Galileia e não sabia como era a paisagem!”. A Luisinha do Mel interveio: “Mas esta é uma tradição que se deve manter e o presépio que mostra Jesus deitado nas palhas, no meio de um burro e de uma vaquinha, significa que Ele não nasceu num palácio sumptuoso, entre figuras vestidas de púrpura e seda, mas no meio dos mais humildes....”. O Braz dos Kiwis ficou por ali e a conversa que ouviu inspirou-lhe este belo poema de Natal: As montras estão engalanadas Com abóboras, bacalhau e rabanadas Mas o presépio da Trigal Vai ganhar o concurso Tem ovelhinhas a pastar No deserto. O Burro e Vaquinha do Natal Do Menino Jesus estão perto! Os Magos Belchior e o Baltazar Também lá estão Tudo feito de pão! Não tem nenhum urso Nem está lá o Rei Gaspar Que para nosso azar É agora rei das Finanças. Mas tem outras criaturas! E por causa das poupanças Está a Rua de Cima às escuras Candeeiro sim, candeeiro não!!! E os comerciantes ralham... e têm razão Pois então!!!
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