Os homens não fervem todos à mesma temperatura
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Não vou comentar a visita que nos fez a senhora Merkl. A simpatia que nutro por ela conta--se em décimos, mas há que não esquecer que é a rotunda senhora quem tem as rédeas na mão, quanto ao nosso dinheirinho, e já se sabe que quem tem as rédeas na mão é quem manda no cavalo - que, neste caso particular, é a nossa governança e atenção que digo cavalo e não cavalgadura, que é coisa diferente e não apenas questão de semântica. Também não vou comentar a greve geral que se seguiu à visitinha, porque, como acho que já expliquei, de pouco admiradora do exercício, me fui habituando com ele, ao longo dos anos, e já está para mim como a palavra “milhões” - não estranho. Uma greve geral é uma greve geral, ponto final, parágrafo, e lá haverá as suas razões. Muito pior - e aqui tenho de comentar - são as greves sistemáticas como as dos transportes, em geral e, de momento, a dos estivadores, em particular. Gente que, já não comparando com os do sufoco do ordenado mínimo, dos recibos verdes, dos empregos precários, ganha por mês mais do que eu alguma vez ganhei. Fora as regalias colaterais. Esta gente está, parece, activamente empenhada em ajudar a desmantelar o país. Fechem-se os portos de Lisboa e de Setúbal e os seus operadores que “vão trabalhar para a estiva”, como se dizia no antigamente, mas para uma estiva desses tempos: fardos, embrulhos, caixotes aos ombros e não como agora, com carrinhos e gruas. E é se alguém lhes der emprego, que dos seus vícios toda a gente sabe... A grande javardice do pós-greve geral por lugares específicos de Lisboa é que me pôs em estado de choque. Fui apanhada de surpresa, sem as viseiras e capacetes - no meu caso mentais - que valeram à polícia que aguentou estoicamente com o arremesso de pedras arrancadas da calçada “à la minute”, garrafas (cheias!) de vinho tinto e sabe Deus que outros artefactos, a que nem a minha imaginação se atreve. Gente que bem pode orgulhar-se de pertencer “à fina flor do entulho” e que aparece pontualmente mundo fora, quando é preciso pôr à prova os seus diplomas de doutorados nas artes da destruição gratuita. E que amor à “arte” aquela gentinha tem! Sem dar razão aos dois grupos sociais por último apontados, não posso deixar de concordar que, como as coisas vão indo, estamos à imagem de Sísifo, o da mitologia grega, que teve, por castigo de avareza e falsidade, subir incessantemente, com um enormíssimo pedregulho, até ao cimo de uma montanha, deixando, então, voltar a rebolar o trambolho montanha abaixo para recomeçar e recomeçar de novo... Quem me entender que se vá “resignando”, que habituados já todos vamos estando... Infelizmente, ainda teremos que engolir muitas passas do Algarve e não é em dias de festa. n LUÍSA MELLO - 20-11-12 * Millôr Fernandes, humorista brasileiro, falecido recentemente.
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