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Águeda e o modelo Triple Helix

por Redacção Soberania em Novembro 21,2012

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O tecido económico de Águeda é caracterizado pela predominância de pequenas e médias empresas industriais, a maioria delas com menos de uma dezena de trabalhadores.

Apesar de assentes num modelo de negócio centrado no fornecimento de bens estandardizados e do relativamente baixo nível tecnológico, as empresas de Águeda têm vindo, ao longo dos anos, a demonstrar uma significativa capacidade competitiva (note-se que Águeda é o 3º. concelho mais exportador do Baixo Vouga), tirando partido de um leque alargado de fatores: da mão-de-obra pouco qualificada e de baixo custo à inovação.

Dinâmica competitiva
e desemprego

A dinâmica competitiva do tecido empresarial aguedense permitiu, durante décadas, a manutenção de uma situação de quase pleno emprego. No entanto, coincidindo com o início do novo milénio, a situação alterou-se, registando-se uma tendência de subida do nível de desemprego, tendência essa que se tem mantido praticamente inalterada até aos dias de hoje.
A taxa de desemprego, em  Dezembro de 2011, rondava os 9%, sendo certo que 2008, com a crise, marca o acentuar da tendência.
Como tem Águeda respondido à crise? A busca por respostas para esta questão poderia ser baseada numa grande diversidade de ângulos de análise. Quanto a nós, um dos ângulos mais interessantes implica olhar com particular atenção para o papel que tem vindo a ser desempenhado pelo governo local.
A Câmara Municipal (CM), de facto, alimentada pelo conhecimento de experiências bem sucedidas no domínio das políticas e práticas de inovação, imprimiu uma nova dinâmica de apoio à atividade económica, assumindo assim uma posição de liderança no que toca à elaboração de estratégias dirigidas para o combate aos efeitos da crise.
A nova postura da autarquia contribui para colocar no centro da agenda local os conceitos que “embrulham” a abordagem global ao problema da inovação e do desenvolvimento, - a economia do conhecimento, a economia verde, o desenvolvimento sustentável, etc.. Por outro lado, a crescente interação com instituições do ensino superior (designadamente a Universidade de Aveiro e a sua escola politécnica de Águeda) começou a ser perspetivada como elemento estratégico da atuação da autarquia em termos de desenvolvimento económico. Deste (novo) contexto resultou o desenho de novas políticas e estratégias de desenvolvimento, num quadro conceptual alinhado com o discurso da União Europeia e num modus operandi assente numa base cooperativa entre a CM e a Universidade de Aveiro.
O modelo ‘Triple Helix’ (Hélice Tripla) de relações entre o Ensino Superior, as Empresas e o Governo emergiu desde logo como a principal referência do novo quadro de política de desenvolvimento.

Modelo Triple Helix

A adoção do modelo ‘Triple Helix’ como inspiração da resposta aos efeitos da crise em Águeda levanta, à partida, algumas dúvidas, uma vez que, naquela que é a versão original do modelo, é assumida a existência no terreno de dinâmicas de inovação assentes numa forte procura de conhecimento científico gerado nas universidades por parte das empresas, o que, no caso de Águeda, está longe de se verificar.
As evidências mostram que a competitividade das empresas aguedenses resulta essencialmente de fatores que são “mobilizados” junto dos seus fornecedores e clientes, cabendo às universidades um papel marginal (importa referir que esta situação estende-se à generalidade dos territórios cuja base económica é feita de PMEs operando em setores de atividade ditos tradicionais). Assim, numa primeira abordagem, a ênfase colocada no modelo ‘Triple Helix’ pode ser considerada como contextualmente desadequada.
 A observação da evolução registada desde a implementação da Rede para a Inovação e Competitividade de Águeda, em 2007, no entanto, torna essa primeira abordagem claramente insuficiente. De facto, com a ‘hélice tripla’ transformada numa alavanca simbólica, registaram-se desenvolvimentos (o Lighting Living Lab é um bom exemplo) que contribuíram para colocar Águeda no mapa da inovação nacional (suscitando, por exemplo, o interesse e o apoio do IAPMEI) e no “mapa” de Bruxelas (onde Águeda é reconhecida como ‘a primeira cidade inteligente de Portugal’). Acresce que a substancial simplificação do (complexo) modelo “Triple Helix” trouxe maior coerência ao processo de decisão política (por exemplo, a Agenda 21 Local e os objetivos de eficiência energética), tradicionalmente marcado pela fragmentação setorial, assim como a abertura de novas oportunidades no que toca ao acesso de Águeda a fontes de financiamento (designadamente a nível da Comissão Europeia).

Projeto “Águedaconcept”

 O modelo, esvaziado do seu conteúdo original, serviu de elemento discursivo mobilizador que, para além de enquadrar a reconfiguração das condições contextuais acima referidas, criou sinergias que sustentam ações concretas e municiadoras de acréscimos da capacidade de inovação (e, assim, de competitividade) das empresas locais.
O projeto “Águedaconcept” constitui um exemplo paradigmático da relação entre o surgimento de novas condições institucionais, - por exemplo, os inovadores laços de cooperação entre atores da indústria e do governo local - , e o desenvolvimento de produtos tecnologicamente avançados, resultantes da combinação de conhecimento e competências das várias empresas que se juntaram.
Uma nota adicional para referir que o projeto ‘Águedaconcept’, pelo menos até agora, não conta com a participação direta de qualquer organização ligada ao ensino superior, o que alimenta a perceção de uma forte contradição associada à utilização como fonte inspiradora de um modelo que requer relações sistemáticas entre as esferas académica, governativa e empresarial num contexto territorial que, por enquanto, não oferece as condições para que essas relações possam ganhar substância. Porém, não fora o discurso motivador da ‘hélice tripla’, dificilmente teríamos assistido às transformações institucionais que sustentam projetos como o ‘Águedaconcept’.
Esta contradição, para os dois cientistas que subscrevem este artigo, constitui um desafio entusiasmante. Parte desse desafio será consubstanciado no desenvolvimento de conhecimento novo sobre a relação entre a interação entre diferentes agentes de inovação e a capacidade competitiva dos territórios.
O caso de Águeda oferece o ponto de partida: em vez da hélice tripla, o processo que evoluiu naquele concelho deu origem a uma configuração institucional que pode ser caracterizada como uma dupla ‘dupla hélice’, uma primeira onde governo e universidade cooperam no desenho de políticas e estratégias e uma segunda onde governo e indústria atuam em conjunto para implementar essas políticas e estratégias.
n CARLOS RODRIGUES *
n  ANA ISABEL MELO **

* Departamento de Ciências
Sociais, Políticas e do Território,
da Universidade de Aveiro
** Escola Superior de Tecnologia
e Gestão de Águeda)


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