Pobretão não deve ver montras...
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Claro que não, isto porque, como dizia o outro, quanto maior o circo maior a bilheteira ou, ainda citando Óscar Wilde, "sou capaz de resistir a tudo menos à tentação"... Com bolsos a tinir não convém, não vá a tentação o virar para o parte vitrinas ou qualquer outro espectáculo deplorável, dos que se vêem diariamente nos ecrãs dos televisores. Por qualquer virtude ou defeito de feitio, não sou muito dada à apreciação de montras e, quando calha, é porque já levo alguma fisgada. Nada que cheire a avenida da Liberdade, mesmo provinciana, que não nasci em Côrte de país produtor de petróleo ou na elite angolana... Também já li uma citação mais ou menos anónima que encaixa bem no título deste escrito: "Nos momentos de perigo é fundamental a presença de espírito, embora o ideal fosse conseguir a ausência de corpo". Coisa que dá para a contemplação, sem livro de cheques ou cartão dourado das montras Vip, ou para esta situação de mal estar que nos tem causado o derrube do sonho dourado prometido pela globalização, pela Europa, pela "generosidade" e disponibilidade dos Bancos, ainda parece que foi ontem! Escrevia outro dia Helena Matos - uma Senhora ensaísta -, "proponho que tudo passe a ter um preço para que se perceba que o gratuito não existe". Parece que só a nossa esquerda mais radical é que ainda não percebeu isto, ou, dizendo de diversa maneira, que é essencial uma adaptação às circunstâncias - globais - da mudança das situações e dos tempos. Podem ter a tentação de partir montras... Se querem saber, eu essa tentação nunca tive. (Se calha partir um copo em casa alheia, fico prestes a ter um enfarte!...). Saiam, manifestem-se, ergam bandeiras com humor, sem humor, com raiva, com punho erguido, entre o povo unido, que diabo não somos os chóninhas da Europa! Desde que não arranquem pedras do chão com destinatário certo, não transportem bombas artesanais, não incitem a revoltas otélicas, que sempre me dão para perguntar a mim própria: e quem me paga depois no fim do mês?!... Previsível que ninguém! Eu continuo na minha: metermo-nos na Europa dos ricos foi mau. Ser do interesse nacional actual já não poder sair, é a pior sensação do irremediável. Aceitar como moeda um euro que o é também da Alemanha, com o qual podemos nem competir nem desvalorizar à conta de algum alívio, foi péssimo. Foi. Eu, pelo menos, estou como o personagem daquela gracinha do amigo que pergunta ao outro, depois de ouvidos os desabafos sobre cenas domésticas: "E nunca pensaste separar-te da tua mulher?!". "Separar-me? Nunca. Matá-la, muitas vezes!". n LUISA MELLO - 21-10-12 * Título da obra “À noite logo se vê”, de Mário Zambujal
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