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O ti Senhor Lopes

por Padre Manuel Armando em Outubro 24,2012

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Evocar memórias do passado é sempre agradável e salutar. Não apenas a saldar saudosismos, mas até para nos divertirmos com diversas peripécias ou recordar figuras típicas que sobressaíram, em tempos idos, pelas suas qualidades de simplicidade, boa convivência e cumplicidade social, o que, nestes nossos tempos, não é tão vulgar assim.
Quando qualquer um de nós lembra pessoas com quem, de algum modo, conviveu, significa que algo ficou na admiração da nossa meninice.
É, por isso, interessante recuar no calendário, vários anos, centrando a lembrança naquelas observações que, ao tempo, pouca ou nenhuma importância alcançaram para nós.
Mas, como o disco rígido do nosso subconsciente regista e guarda as circunstâncias nós, espevitados por tudo quanto se desenrola à nossa volta e comparando os comportamentos de antanho com o modo de estar e agir, hoje em sociedade, podemos redescobrir o valor de muitos homens e mulheres que nos legaram ensinamentos exemplares e, só agora, lastimamos por não sermos ou fazermos como eles.
Aquele era o Senhor Lopes, para os adultos porque nós, crianças ainda, o apelidávamos sempre como o “Ti Senhor Lopes”.
Homem com pele vermelhusca, dava a impressão de que, logo pela manhã, teria regado a goela para melhor apregoar a sua mercadoria. Não se confirmava, porém, semelhante suposição, porque ele era abstémio.
Em todos os dias da semana pedalava na sua velha e desconchavada bicicleta, durante largos quilómetros, por caminhos de terra batida e entre arvoredos, para entregar o correio por muitos, ansiosamente, aguardado.
Quantas eram as surpresas, alegrias e dores, êxitos ou derrotas, saudades e confortos, que ele acarretava na sua seira, sem suspeitar nunca nada sobre isso.
Sempre com uma palavra amiga, aberta para todos, e quando nós os mais novos, lhe perguntávamos se nos trazia correspondência, a resposta era impreterivelmente: “Hoje não, mas amanhã vem, pelo menos, um fardo de palha”.
Na altura, não tomávamos tal coisa a peito, ríamos e tudo passava sem amuos nem mais delongas.
Aos mais velhotes necessitados, sem meios de transporte, prontificava-se em levantar-lhes as reformas e levar-lhas inteirinhas. Recados e embrulhos, tudo vinha a carregar o “ti Senhor Lopes”, que nunca dizia não a ninguém e, por isso, se tornou uma pessoa desejada, estimada, admirada.
Mas o tempo, seguindo sempre a sua marcha inexorável, pôs termo a todas estas prestações exemplares. Primeiro foi a reforma e, poucos meses depois, o falecimento.
Ficarão, todavia, para sempre gravadas nas lápides da memória, a atenção aos outros e o desapego à sua própria pessoa, pois nunca se esforçou por quaisquer interesses próprios.
Mudam-se os tempos e trocam-se os ventos. E, nos actuais, gera-se um ambiente de excessivo egoísmo, enquanto as boas vontades e o espírito de servir vão caindo, cada vez mais, ainda que formulemos a esperança de os indivíduos chegarem, algum dia, a sentir também o imperativo de se regressar à formação dos valores que educam e elevam a personalidade humana.
n  PADRE MANUEL ARMANDO

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