Buono giorno, Itália!
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Toda a festa é triste ou, se preferirem, sempre da alegria pode nascer a tristeza. Assim vai acontecer à comitiva do Orfeão de Águeda que, no outonal entardecer do dia 17 de outubro, aquele que para sempre roubou ao convívio da família orfeonista da Casa do Adro a sua brilhante dirigente e coralista Ana Paula Silva, vai viver essa pungente mistura de sentimentos de tristeza pela perda de uma pessoa querida e de sentimentos de júbilo por estar a preparar a partida para uma vez mais ir defender o prestígio da velha colectividade e levar o nome de Águeda a essa pátria da cultura, da poesia, da pintura, do pensamento e da música que foi e ainda é a Itália. Depois do grande êxito alcançado em Praga, tem o Orfeão de Águeda a responsabilidade de erguer bem alto a qualidade do seu coral misto no Festival-Concerto que terá lugar no Auditório do Palácio dos Congressos de Riva Del Garda, bem como no concerto de todos os conjuntos que se realizará no Auditório de San Giuseppe. A hora da partida (7,10), com presença no Aeroporto da Portela às 5 horas, é belíssima para quem sofre de insónias prolongadas ou dorme a sono solto, quer nos bancos dos autocarros quer nos apertados assentos do avião. Mas isso, qualquer que seja a situação, não vai ter importância nenhuma quando, pelas 11 horas, estivermos a pisar o chão de Milão sob la bellezza del cielo de la poderosa città. Milão vai ser apenas a fugidia imagem que o relance do olhar dos orfeonistas dela guardar, porque é preciso partir rapidamente para o lago de Garda, um dos três lagos alpinos, o mais a leste, em zona já não granítica mas calcária, um pouco a norte da correnteza das cidades de Milão, Verona e Veneza, vizinhas urbanas da planície aluvial do rio Pó e seus afluentes. Vamos chegar já sem os calores do verão mas ainda sem o frio do inverno, talvez só com esses ventos breves e frescos que se soltam na região dos lagos alpinos. Diria que a permanência em Itália tem dois momentos altos: o da atuação do Orfeão de Águeda, em cujas vozes deposito toda a confiança, reforçada pelo gosto musical e pela competência do seu maestro, Paulo Neto, que uma vez mais vai mostrar que a arte e a beleza têm um valor que a pecúnia fera e bruta jamais é capaz de alcançar. E é isso que engrandece as terras, é a sua arte que dará mais brilho ao nome de Águeda, como aconteceu quando o nome de Manuel Alegre foi atribuído, pela qualidade da sua poesia, a uma cátedra de Literatura da Universidade de Pádua, essa velhíssima e prestigiada Universidade. O outro momento será o da visita a Veneza, uma cidade que vive na imaginação de muita gente, com suas pontes e canais, com a sua beleza impar e seus magníficos monumentos. Nas suas ruas, praças, casas e palácios, perdura a memória de um dos maiores polos artísticos e culturais da europa medieval, cidade riquíssima cujo poderio os portugueses ajudaram a fazer declinar quando, depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia, desviaram o tráfego comercial do Mediterrâneo para o Atlântico. Será uma cidade que ficará no coração de todos os orfeonistas, pese a carestia da vida, porque irão beneficiar de uma viagem guiada a partir da célebre Praça de São Marcos. E, depois, lá irão passar pela Ponte dos Suspiros, pela Ponte Rialto, com a Basílica da praça de São Marcos na memória, extasiados com a Torre do Relógio, o Campanile, o Palácio dos Doges, a Igreja gótica de San Stefano, de San Gregorio, e talvez possam ainda ver o palácio bizantino onde viveu o grande poeta Petrarca que tanto influenciou Camões. Este devia ser o mundo dos humanos, isento de injustiças, de fome, de guerras, de opressores e oprimidos, pleno de beleza, com a inteligência, a sensibilidade, a cultura e a fraternidade a comandar as relações entre os povos. Se neste breve encontro de algum modo assim puder ser, Águeda e Portugal deixarão um sinal da sua arte e do seu canto e os orfeonistas trarão no bornal alguma da riqueza cultural onde durante séculos soubemos beber para assim aprofundar a nossa própria arte e pensamento. Pessoalmente, tenho pena de não poder dar uma saltada ao Castelo de Duino, ali tão perto, erguido sobre as fragas que entram pelo azul dentro do Mar Adriático e onde Rainer Maria Rilke escreveu as suas admiráveis Elegias de Duino e os Sonetos a Orfeu. Itália vai ser uma festa, mas tal como escrevi no princípio deste texto deixem-me que traga um pouco de tristeza das fragas do Adriático, do Castelo da Princesa Marie Von Thurn und Taxis-Hohenlohe, mas cheia da beleza da poesia de Rilke. É o meu modo de dizer que Ana Paula também esteve connosco. Era menina quase, e eis se ergueu desta ventura una de canção e lira e clara brilhou através do seu véu a Primavera e fez no meu ouvido a cama. (…) Ela dormiu o mundo. Deus cantor, como é que tu a completaste, que ela não te pedisse para acordar primeiro? Vê – surgiu e adormeceu.
E a sua morte, aonde? Oh, inventarás inda este motivo, antes que o teu canto se consuma? – Para onde é que ela cai, de mim caída?... menina quase… n PAULO SUCENA
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