Águeda é um concelho com maior força económica que política
A força económica de Águeda está normalmente acima da sua força política, mas tal nem sempre se reflecte no desenvolvimento do concelho. O Município e o presidente da Câmara, numa atitude meritória, acabam de reconhecer publicamente um conjunto de empresas e empresários de Águeda que foram distinguidos pelo IAPMEI com o Estatuto PME Excelência 2011, solicitando-lhes que, nos pedidos de licenciamento referenciem esse estatuto, para que as respostas administrativas sejam mais rápidas no âmbito do “Simplex Autárquico”, numa prerrogativa extensível a todas as empresas que queiram investir em Águeda.
Boas notícias Há também a boa notícia de que um empresário de Águeda foi incluído numa lista de candidatos ao prémio de “empreendedor do ano”, instituído pela Ernst & Young, em parceria com o jornal Diário Económico. Estas boas notícias acontecem num concelho de tradição industrial forte, no qual é conhecido o sucesso nacional e internacional de algumas empresas nos clusters da iluminação e da bicicleta, parecendo mais incisiva a aposta da autarquia no apoio ao cluster da bicicleta eléctrica, através das várias soluções urbanísticas promocionais que se vêm desenhando na requalificação urbana em curso, diga-se, nem sempre da melhor forma (exemplo: vias cicláveis). Já no sector da iluminação, a influência da autarquia não se tem notado tanto, a avaliar pelas notícias que circularam por ocasião das obras na Escola Secundária Marques Castilho em que, apesar das empresas e dos clusters da iluminação de qualidade existentes em Águeda, toda a iluminação terá vindo de fora, apesar dessa opção não ter sido da responsabilidade da autarquia mas do governo anterior e do seu “grande negócio” da Parque Escolar. Poderia, no entanto, a Câmara Municipal ter enviado uma missiva ao anterior primeiro-ministro Sócrates chamando a atenção para um slogan do género “compre iluminação de Águeda ”, ou “eu compro iluminação em Águeda e você”?
Poderes económico e político A grande questão, porém, mantem-se: apesar deste sucesso de algumas empresas de Águeda, apesar da crise e da agonia de outras, que não acompanham as exigências da globalização e a necessária modernização dos processos produtivos, apesar da míngua de crédito e de liquidez para fazer face a compromissos de tesouraria, a verdade é que o poder económico ainda é mais forte em Águeda do que o poder político, que manifestamente não tem a mesma força de outrora, independentemente da cor partidária dos governos. Basta referir alguns casos, que a todos nos deverão fazer pensar: desde o Tribunal de Círculo que, em tempos, foi para Anadia, agora reforçado com a Grande Instância Cível - que também não veio para Águeda, mas foi para Anadia; desde o projecto do Tribunal novo, que se transformou numa mini-remodelação do actual, até à morte lenta desse grande desígnio com mais de 30 anos, que é a ligação rodoviária Águeda-Aveiro, acompanhado, agora, do tiro na linha ferroviária do Vale do Vouga, as manifestações de falta de peso político de Águeda são abundantes, antigas, e não têm feito jus ao seu peso económico.
Falta força política Tal ausência de força política ganha ainda mais contornos de verdadeiro abuso quando, rumando a norte, na área da rodovia, encontramos, para além da A1, paralela à A29, mais a A32, de Oliveira de Azeméis a Gaia, com 24 kms., dominada por quatro ou cinco monumentais pontes que terão custado milhões de euros! Num domingo, fiz o percurso da A32 e passaram por mim 14 veículos! Se os governos tiveram capacidade para fazer essas rodovias concentradas numa região do país, ou em áreas metropolitanas onde passa um veículo de cinco em cinco quilómetros, porque não tiveram capacidade para fazer 20 kms. de via rápida Aveiro-Águeda, e uma ligação à A1, ambas com tráfego mais que garantido? Será culpa dos governos centrais, ou do poder local (político e económico) que não fez bem o seu papel? De que adiantará ter uma cidade atractiva, um parque industrial e um projecto de desenvolvimento económico, sem que se lute por vias de comunicação eficazes e à altura desse desígnio? Só pode haver duas respostas para este descalabro: ou o poder político tem sido manifestamente fraco, ou o poder económico, apesar de mais forte, tem sido autista e pouco solidário! A situação só se inverterá quando o poder político local tiver uma força política que vá para além dos prémios de modernização administrativa, e quando o poder económico local, que ganha prémios e que investe em empresas e no mecenato, junte a sua força económica à força política para que juntos ajudem a tirar Águeda do esquecimento a que tem sido votada. PAULO MATOS * Membro da Assembleia Municipal de Águeda
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