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Pregadores, oradores e alguns palradores

por Manuel Armando (padre) em Julho 13,2011

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Recordo os meus primeiros tempos de estudos, após a Primária. Comecei, na altura, a escrever uns postaizitos para casa, comunicando as minhas saudades, enquanto pedia uns tostões para os lápis. Em resposta, lá recebia uma cartinha, escrita por uma das minhas irmãs mais novas, mas ditadas pelo coração de nossa mãe, na qual ela expressava o desejo, ou antevisão, de que eu fosse um bom pregador (não conhecia ela o vocábulo “orador”). Seria a maneira, mais à mão, para me entusiasmar.
Também eu, naquela ocasião, me questionava sobre o alcance dessa pretensão, ou o que significaria tal coisa.
Não importa, agora, enunciar outros pormenores premonitórios maternos. Mas o que descobri, de certeza, foi a minha falta de jeito para tal patamar. É certo que, até uma ou outra vez, subi a um púlpito, onde sempre me senti deslocado e desconfortável, com o sentido de responsabilidade por algum possível torcicolo causado em quem ousasse olhar para mim. Por isso, passei a preferir estar mais perto, e olhos nos olhos, com as pessoas.
Transcorrido todo este tempo, parece que entendi, finalmente, o significado do perfil de um bom orador. Aquele que sobe a lugar cimeiro e, destacado da praça pública ou da televisão, se assoa com ruído três vezes (guardando “tudo” no lenço), olha com ar prazenteiro de sobranceria sobre os circunstantes, tosse para desanuviar os brônquios e começa a falar, fingindo que não lê. Vai elevando o tom de voz que adaptou e apurou, previamente, em terapeuta da fala, até se empolgar, fazendo afirmações bombásticas, limpa o suor da cara, depenica num copo de água e continua, por mais uns largos minutos, a massacrar os ouvintes com “tiradas” bem fortes e colocadas, numa prosa bem tecida e, nalgumas ocasiões, arranhada.
Se tem razão, fala em tom alto, mas consciente de que ela não o assiste, fala mais alto. E, conhecendo, em antecipação, a inutilidade vazia dos seus planos e afirmações, eleva a sua dissertação para uns decibéis mais agudos ainda.
Por tudo isto, apraz-me, como certamente a muitas outras pessoas, registar o termo das campanhas políticas, por algum tempo, pelo menos.
E neste período de tréguas, os nossos ouvidos estarão livres daquele massacre fastidioso, constante e repetitivo, podendo nós sujeitá-los ao rastreio de avaliação das lacerações sofridas e voltarmos a reiniciar outros caminhos, com determinada serenidade.
Pessoalmente, continuo a desvendar, em cada momento, que a razão da validade de quaisquer depoimentos ou empreendimentos supõe convicções interiores, entusiasmos fundamentados e conducentes a resultados positivos renovadores. As palavras discursivas exigem a sua repercussão de verdade na transformação da sociedade, nas suas diversas vertentes, desde as sociais, políticas, religiosas, individuais ou comunitárias.
Caso contrário, a nossa própria desilusão pessoal, na convicção certa de falhados, será tremenda e desencorajante e a tentação de abandonar a empresa torna-se realidade inevitável, por tamanha sensação de inutilidade adquirida.
Reconheçamos que o tempo dos apregoados e afamados pregadores de Igreja, com discursos de fazer parar a respiração, eivados de ameaças arrepiantes, num fraseado cuidado e correctamente composto, já é pertença do passado.
Semelhante teor de comunicação terá animado, hoje, alguns pretensos tribunos políticos pouco pregadores, menos oradores e, por vezes, mais palradores. Também eles, porém, experimentarão a mesma exigência de mudar a estratégia para fazerem passar, aos seus imaginados clientes, o sumo dalguma autenticidade.
Há que anunciar, sim, mas na base de uma conversão pessoal. n PE. MANUEL ARMANDO

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