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Memória: Como o Recreio de Águeda presidiu a uma Associação de Futebol de Aveiro

por Deniz Ramos em Julho 23,2010

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Na época de 1934-1935, o Recreio Desportivo de Águeda, através dum seu representante, presidiu à Associação de Futebol de Aveiro. Foi em Janeiro de 1935. É possível que muito poucos saibam como e porquê isso aconteceu pois na edição comemorativa dos 75 anos da Associação de Futebol de Aveiro não se faz qualquer referência ao acidente. Tratou-se realmente de um acidente de percurso na existência digna e operosa de uma das mais credenciadas estruturas associativas enquadradoras do futebol distrital.
Mas contemos, socorrendo-nos das actas do Recreio e, para credibilizar a informação, dos jornais da época, em particular, de Independência de Águeda.
Na reunião da direcção de 17 de Janeiro de 1935, na ausência do Presidente João Abiul Lebre de Seabra, presidida pelo vice-presidente Valentim Ribeiro de Melo, entre outros assuntos, “por unanimidade foi resolvida a filiação na nova Associação de Foot-Ball de Aveiro, com sede e secretaria em Aveiro”. Nessa mesma reunião, resolveu-se também “aceitar a nomeação para a presidência da Associação Distrital de Foot-Ball e delegar no sr. Joaquim Augusto Quaresma a nossa representação naquela entidade desportiva para assistir e presidir às suas reuniões”. Joaquim Augusto Quaresma era, na altura, treinador dos grupos de futebol do clube. Na reunião seguinte, a 24 de Janeiro, foi aditado à acta anterior o motivo que justificou a decisão de filiar o clube na nova associação. Esse aditamento é deste teor: “A esta direcção foi há tempos proposta por uma comissão de dirigentes do foot-ball aveirense a filiação numa nova Associação Distrital com bases legais e com estatutos devidamente aprovados no Governo Civil. Considerando que a antiga associação havia obrigado todos os clubes filiados a legalizar a sua situação, mostrando e provando a sua legalidade; considerando que é tudo quanto há de mais estranho e inadmissível obrigar os pequenos clubes a despender grandes importâncias com a sua legalização quando ela se não encontrava legal, nem sequer para isso caminhasse; considerando, ainda, que alguns dos seus actos foram julgados com parcialidade e facciosismo inadmissíveis, esta direcção, conhecedora das ilegalidades e tropelias à verdade feitas pela antiga Associação, foi de parecer que se devia anuir ao proposto por aqueles desportistas aveirenses, filiando-nos, portanto, na actual Associação, tanto mais que a maioria dos clubes destas redondezas está connosco, e este club passa a disputar o campeonato da Divisão de Honra e as suas reservas o da 1.ª Divisão com o sobrenome de Grupo A. Em uma reunião dos delegados dos clubes, efectuada em Aveiro, foi esta direcção posta ao corrente do que se passava e se resolveu começar o campeonato e entrar a funcionar normalmente. O primeiro desafio efectuou-se em 20 do corrente, iniciando-se, portanto, o campeonato da Divisão de Honra e da 1.ª Divisão”.
Para compreendermos melhor as razões invocadas pelos dirigentes dissidentes, importará referir que a Associação de Foot-Ball de Aveiro foi fundada a 22 de Setembro de 1924 por um grupo de dirigentes desportivos liderados por Mário Duarte (pai). Funcionou na cidade de Aveiro até 15 de Outubro de 1930, data em que foi transferida para Ovar com a justificação da maioria dos directores pertencer ao concelho de Ovar. Em 1935, ainda a sede se mantinha em Ovar e desde a época de 1933-34, presidia à direcção da Associação o dirigente ovarense António Coentro de Pinho, que se manteria nessas funções até à época de 1943-44.
Durante duas dezenas de anos, os clubes do norte do distrito dispuseram de indiscutível supremacia desportiva, averbando vitórias sucessivas nas provas organizadas pela Associação (Campeonato Distrital, Divisão de Honra a partir de 1932-33). O Sporting Clube de Espinho seria o campeão distrital nas suas três primeiras edições, voltando ainda a conquistar esse título em 1929-30, 1931-32, 1933-34. O Sport Club Beira-Mar em 1928-29 e a Associação Desportiva Ovarense em 1930-31 e 1932-33 distribuiriam entre si os restantes títulos até à época dos acontecimentos que vimos reportando.
Terá sido a supremacia dos clubes do norte a provocar o golpe dos dirigentes de Aveiro? Ou porque a sua sede foi roubada para Ovar? E a filiação do Recreio Desportivo de Águeda não terá sido  aproveitamento interesseiro para ascender ao primeiro escalão do futebol distrital, à Divisão de Honra? É o que procuraremos entender muito embora entre os clubes que se filiaram na nova Associação se encontrem a Associação Desportiva Sanjoanense, a União Desporti-va Oliveirense e Paços de Brandão Foot-Ball Clube, três dos doze clubes fundadores da Associação de Futebol de Aveiro em 1924 e igualmente do norte do distrito.

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