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Águeda: Orquestra Municipal encheu o palco

por VICTOR MELO em Junho 17,2009

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A Orquestra Municipal de Águeda subiu ao palco no dia 10 de Junho e mostrou-se à cidade, que a recebeu com emoção, num Cine-Teatro São Pedro repleto de gente. 131 músicos, cinco bandas, duas horas de música e um espectáculo para recordar. A próxima actuação está agendada para 13 de Setembro, no Largo 1º. de Maio.

Tannauser foi um cavaleiro e poeta germânico do século XIII. Reza a lenda que descobriu a passagem subterrânea para o reino de vénus – deusa romana da beleza e do amor  –  e lá permaneceu, um ano, em Idolatração. Quando o sagrado e o profano se misturaram, partiu em busca da redenção. Morreu sem saber que a tinha alcançado.
A lenda inspirou Richard Wagner. E a sua ópera inspirou Óscar Matos, da Banda Castanheirense, que dirigiu “Tannauser” no início daquela que foi a estreia da Orquestra Municipal de Águeda, no dia 10 de Junho. 131 Músicos, oriundos de cinco bandas, subiram ao palco, unificados pela beleza e amor pela música. Um desígnio igualmente longo, árduo, que também peregrinou pelos caminhos da redenção.
“É o culminar de um sonho de 20 anos. Lutei muito por ele, com frustrações ano a ano, que se foram agravando até à rotura total, que por sua vez deu origem à renovação”, revelou António A. Silva, presidente da União de Bandas de Águeda (UBA), entidade que esteve na origem da orquestra. Frisa que a supressão das  “guerras e disputas doentias e mesquinhas” entre as bandas do concelho, que “ainda prevaleciam há seis meses”, marcam o acto redentor e triunfador da UBA. “Cultural não é cultura se não for feita em paz”.

A música ensina

A força da música, a seu ver, tudo supera. “Se todos fôssemos músicos, este mundo seria bem melhor. A música ensina-nos a estar na sociedade”, frisou, defendendo que a verdadeira democracia, se existe, é numa orquestra. “Quando estamos integrados, de alma e coração, numa orquestra, aprendemos a viver a democracia. Cada um no seu espaço e no seu tempo, respeitando o espaço e o tempo dos outros”.
Visívelmente emocionado no final do concerto, António A. Silva sublinhou a actuação dos “músicos de primeira água, que demonstraram que não é preciso ir às capitais para ouvir bons músicos e agrupamentos”, partilhando a felicidade sentida ao contemplar o grupo a “partilhar o mesmo papel, a obedecer à mesma batuta, a interiorizar a mesma sensibilidade.”

Tempos de mudança

A relação entre Câmara Municipal e a UBA nem sempre foi concordante. Houve divergências ao longo dos tempos. Hoje, ambas as entidades encontram-se em sintonia.  O presidente Gil Nadais, confessou que sentiu um “enorme arrepio na espinha” quando os primeiros acordes troaram pela sala do cine-teatro. “Senti que se estava a fazer história. Fez-se história”, afirma. Defendeu que quando os tempos mudam, há que aproveitar a mudança. “A UBA encontrou um rumo, uma liderança, que traçou um caminho que hoje culminou neste espectáculo”.  
Para além do contributo cultural, assumiu que esta estreia "é marcante em termos de associativismo". “Provou-se que é possível juntar as colectividades. E o que vai transparecer, mesmo para as outras áreas, é que é possível inovar, fazer coisas diferentes, de elevada qualidade. E a Câmara lá estará para as apoiar”.
António A. Silva fez questão de tonificar essa ideia, com a oferta de um certificado emoldurado – onde se lia: “Da parceria entre a Câmara e a UBA nasceu a Orquestra Municipal” - sugerindo a Gil Nadais que o pendurasse no gabinete “para não se esquecer dos compromissos assumidos”, sendo que ele ia fazer o mesmo.
“Não é preciso um quadro para me lembrar, pois da janela do lado esquerdo do meu gabinete é visível um reclamo da UBA bem iluminado”, ripostou o autarca aguedense, num momento de boa disposição.

Música, maestro!

Cinco bandas, cinco maestros.  Dois deles, Pedro Neves e João Neves, disponibilizaram-se para integrar a orquestra, ao violoncelo. “Alguns colegas não puderam vir. Como tenho prazer em tocar, lancei o repto ao Pedro”, referiu João Neves. Com 58 anos, diz ser músico desde os 10, altura em que ia ver os ensaios do irmão mais velho na Banda Nova, num velho edifício no Largo Senhora da Saúde, em Fermentelos.
O gosto pela música enraizou--se. Passou por quatro orquestras lisboetas, até se reformar, há sete anos. Desde então, vai assumindo a batuta da mesma banda que semeou a música no seu ser. Nesta estreia, dirigiu “Galáxia”,  de autoria de Capitão Morais – que entusiasmou o público com o seu dinamismo e diversidade.
Houve palmas ao ritmo de “Kalinka” (popular composição russa, de Ivan Larionov, 1860), e emoção ao som de “What a Feeling” (banda sonora do filme “Flashdance”, 1983). “É uma obra espectacular. Uma peça com muita força, que mexe com as emoções”, afirmou João Neves. Visivelmente satisfeito com o desfecho do concerto, salientou a disciplina colectiva e a experiência vivida: “Numa orquestra sente-se um vácuo sonoro único, bem diferente do que sentimos nas bandas”.
Pedro Pitta, Delegado Regional da Cultura do Centro, não dispensou elogio ao "patamar histórico que hoja se atingiu". "Fez-se história, nesta jornada verdadeiramente histórica e singular", disse Pedro Pitta, sublinhando ainda que "este dia mostra que há futuro para as bandas, este dia é o da consolidação da música na Região Centro".
      
Nota: Um dos jovens músicos que integraram a orquestra, Márcio Martins ferreira, 16 anos,  faleceu no dia seguinte ao espectáculo de estreia. António A. Silva apresenta as suas sentidas condolências a amigos e família, em nome da União de Bandas de Águeda e da Soberania do Povo.
- VICTOR MELO




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