A vitória do Obama
Nov 21,2008 00:00 by NELSON LEAL
A vitória eleitoral de Barack Hussein Obama na eleições presidenciais norte-americanas, tem um significado, um peso e uma importância tais, que em muito ultrapassam os limites das fronteiras estaduais daquele país. É um assunto de tal modo relevante que considero ser um assunto de todos nós, do Mundo, da Europa, de Portugal, de Aveiro e de Águeda.
Por isso, aqui estou.
A vitória de Obama, um afro-americano, filho de um negro queniano e de uma branca americana, que praticamente não conheceu o pai, que foi educado, em grande parte da sua infância pela avó materna, por morte prematura da mãe, que cresceu em meios humildes e se fez homem de sucesso a pulso, é, em primeiro lugar, uma vitória da democracia americana (por mais defeitos que tenha e tem muitos e por mais pedras castigadoras que lhes lancemos e merecem-nas, esta eleição é um feito singular do regime e que muito honra os seus fundadores, como George Washington e, acima de tudo, Abraão Lincoln, responsável pela União e pelo fim da escravatura). Mas é também uma vitória da esperança, depois do abominável mandato de George W. Bush.

Um legado calamitoso

O legado de Bush foi tremendo. Alcandorado ao posto de presidente de uma hiper-potência e alimentado por raízes pseudo-religiosas, de cariz fundamentalista, empunhou a Grande Espada Inquisitória e, com ela, pretendeu julgar os vivos e os mortos e os bons e os maus, em nome da justiça divina. O resultado, aí está: um mundo dividido, crispado, o fundamentalismo islâmico a ameaçar o mundo global em ondas crescentes de terror, a administração norte-americana a voltar as costas aos seus aliados, a desprezar Convenções e Acordos e, à margem da lei, a recuperar a tortura e os campos de concentração, a subestimar os instrumentos diplomáticos em nome da sua Divina Determinação, a legar um sistema económico à beira da falência e um sistema financeiro à beira da banca rota, com um déficite orçamental e uma dívida pública incomensuráveis, etc, etc. Um legado, que só poderá ser ultrapassado, com uma vontade comum, que produza sinergias que vão muito para além do teórico potencial dos especialistas económicos e financeiros. Por uma razão muito simples: não há soluções económicas nem políticas racionais para a magnitude das febres que atormentam o nosso mundo de hoje. Só mesmo a fé nos salvará! E quem melhor do que este pastor encarnado em político, com a sua eloquência, a sua inspiração e a sua fé, para nos guiar?

Produto de marketing?

Mas existe uma outra realidade para além desta realidade. Quer queiramos, quer não, Obama é um produto do sistema. Um sistema que tem as suas premissas e os seus limites, o seu Congresso e o seu Senado, a sua CIA e o seu FBI, os seu lobbies e os seus financiadores. Um sistema que o utiliza, enquanto proveito e o limita, enquanto prejuízo. Porém, que não restem dúvidas: o seu discurso abrangente, a sua visão de um mundo global e diverso mais perfeito e o seu sentimento pacifista, serão uma oportunidade para o mundo e uma porta aberta para um futuro mais promissor, que, todos nós, de Águeda, de Portugal, da Europa e do Mundo, deveremos aproveitar para, atraídos por este íman positivo, lançar os fundamentos para a refundação da comunidade humana.
Tenho, à mesa da minha cabeceira, um livro de Barack Obama, com o título “A Audácia da Esperança”. Na sua página 108, pode-se ler, a determinada altura: “E quando olho para a multidão sinto-me de alguma forma encorajado. Na sua presença vejo trabalho árduo. Na forma como lidam com os filhos vejo esperança. O tempo que passo com eles é como um mergulho numa corrente fria. Sinto-me limpo, feliz pelo trabalho que escolhi.” Que esta corrente fria e este rio humano, que somos todos nós, nos leve para um estuário de esperança e para um mar de tranquilidade, são os meus votos. Porque, hoje, aqui e agora, só vejo escolhos, correntezas e gargantas apertadas de angústia.
A Bem da Nação