Sete palmos de terra...
Oct 31,2008 00:00 by COSTA LEITE
A vida, a nossa vida, vale pelos objectivos que cada um a si mesmo se propõe, e não propriamente pelas metas atingidas. Significa esta frase que o valor da vida depende do empenhamento que cada um sabe aplicar em cada momento e em cada actividade, da alma que coloca naquilo que é e naquilo que faz.
Os objectivos traçados são bússola a nortear toda a orientação dos nossos caminhos. Podemos, de facto, não atingir tudo quanto projectámos alcançar; porém, não podendo embora atingir a plenitude, ninguém está dispensado de atingir o possível. Mas tudo depende dos objectivos. Objectivos elevados conduzem necessariamente a vidas com nível adequado; objectivos mesquinhos fazem mergulhar na inutilidade da acção, na baixeza dos sentimentos e no egoísmo mais refinado.
PRINCÍPIOS: Nem toda a gente se orienta pelos mesmos princípios, e, sobretudo, pela mesma escala de valores. Quem coloca os valores materiais em primeiro lugar, assume, inevitavelmente, atitudes diferentes daquele que coloca os valores culturais ou sociais lá no cimo dos seus objectivos; quem pauta a sua vida pelos valores de moral tem uma outra forma de ver as coisas, de analisar as situações e de tomar comportamentos compatíveis. É tudo uma questão de fins e de meios. Será que todos os “fins” justificam os “meios”? Depende da perspectiva.
Há pessoas que nada mais vêem do que bens materiais: por eles dão tudo, o seu esforço, o seu trabalho, o seu descanso, a sua família, os seus amigos. Se é preciso conseguir mais isto ou mais aquilo torna-se importante desviar da frente tudo quanto impede de o alcançar, sejam as pessoas, as instituições ou até a própria consciência. Muda-se um marco, na escuridão da noite, para se “apanhar” mais um eucalipto ao vizinho, alteram-se os limites das propriedades lançando aterros de pequena monta, mas continuados, plantam-se árvores nos limites para criar a confusão, e, mais tarde, tirar proveito da situação, apanha-se tudo que se vê aparentemente perdido ou desarrumado para ir enchendo a própria casa, encontra-se ou rouba-se uma carteira e devolvem-se amavelmente os documentos, recebendo uma eventual gorjeta depois de se ter roubado o dinheiro que a carteira transportava, corta-se milho, videiras, árvores de fruto, mata-se galinhas e pombas aos vizinhos, lança-se os tais “maus-olhados”, enche-se e reparte-se “toneladas” de inveja por todo o lado. Numa palavra, rouba-se descaradamente e rouba-se às escondidas, os inocentes e os incautos. Há gente que faz carreira farta nestes negócios, querendo convencer-nos de que “o que é preciso é saber viver”. Enchem as nossas ruas e passeiam-se com as suas mãos sempre metidas nos bolsos... dos outros
MEIOS E FINS: Volto agora atrás, para perguntar se os fins justificam os meios. Regra geral, no fim da vida, a palavra mais usada é “deixo”. Deixo isto, deixo aquilo! Não porque queira, mas por tem de ser. E deixa-se, para quê? Criados e educados nestes “princípios”, sem princípios, os filhos logo se pegam à bulha por causa das partilhas. E lá vêm as zangas, os tribunais, as famílias divididas, novas e velhas invejas agora juntas e mais requintadas.
E a consciência, para onde se ausentou? Talvez tenha ido de férias! E Deus? Bom, isso, ... é melhor que não exista nada para além da morte! Convém, não é? Há muitos ateus por conveniência, há gente que não acredita na vida para além da morte por conveniência! Sem consciência e sem Deus, o homem dificilmente respeita o outro homem, antes com toda a facilidade o explora! É a tal esperteza de alguns a sobrepôr-se à ingenuidade ou fragilidade de outros!
A ganância é uma das grandes tentações do nosso mundo, embebedado no Ter e esquecido do Ser; um mundo que marca posição pelas contas bancárias ou pelo elevado número de propriedades adquiridas, um mundo que se afirma por uma filosofia: Que ninguém me faça sombra, porque, se alguém o fizer, eu tenho meios para chegar sempre mais alto, nem que, para tal, seja necessário pôr todos os outros abaixo.
Li, algures, que o homem não pode ser como o porco, que, sempre com o focinho na terra, não é capaz de “olhar o céu”! Se o ser humano não é capaz de ver mais longe e mais alto, então, poderá acontecer aquilo que, há dias, me fez pensar nesta crónica: A um homem, excessivamente preocupado em meter todo o mundo dentro do perímetro dos seus braços, inquieto por não ter conseguido ainda mais uns palmos de terra a um vizinho, e apanhado em flagrante, este lhe disse: “Olhe, amigo, com essa sua ganância toda, temo que, depois de morto, ainda abra o caixão, e, estendendo o braço para fora, possa roubar a terra ao seu vizinho do lado”.
Macabro?! Talvez pudesse ser argumento para um filme, porém, não deixa de ser uma óptima interpelação para o sentido da vida. E não esqueça: Sete palmos de terra chegam, e, ao fim de alguns anos, até podemos perder o direito a eles.