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Portugal não mudou desde os tempos de Eça
Sep 18,2008 00:00
by
Carlos A. Abrantes (dr.)
Volta e meia, dou comigo a reler Eça de Queirós, o meu autor preferido. Nele encontro sempre algo de novo - uma personagem, uma situação, uma analogia. Desta vez, o livro foi o Conde d'Abranhos, escrito em 1879, e fiquei com a sensação que Portugal não mudou muito nos últimos 120 anos. Aqui vai o perfil sucinto de três personagens do livro: o Conde d´Abranhos, o Doutor e o Conselheiro Gama Torres. - Alípio Severo Abranhos, filho dum humilde alfaiate, nasceu pobre, muito pobre. À custa de uma tia abastada, cursou Direito em Coimbra, onde se fez bacharel. Inteligente e ambicioso, cedo percebeu que o seu futuro se jogaria em Lisboa, o lugar onde tudo acontece. Aí, casou com a filha de um Juiz Desembargador, rico e influente. Bem de vida, escrevia regularmente artigos no jornal “Bandeira Nacional”, ora defendendo o poder, ora atacando a oposição. Com tão brilhante estratégia e tão fina inteligência, cedo chegou a deputado. Mas Alípio Abranhos queria subir mais alto, ser Ministro! E vai daí, quando percebeu que a maioria partidária a que pertencia estava para cair, mudou de partido. Tal como a cortiça, flutuou e manteve-se à tona, intrigou, meteu empenhos e, finalmente, chegou a Ministro. Entretanto rejeitou o pai pobre, que faleceu sem que ele fosse ao funeral. E como a falta de carácter não era impeditiva da atribuição de um título nobiliárquico, Sua Majestade promoveu-o a Conde - o Conde d´Abranhos. Um exemplo de ascensão política e social, largamente copiado pela elite dos nossos dirigentes, tanto de ontem como de hoje. - Quanto à segunda personagem, o Doutor, pouco ou nada se sabe das suas origens. Sabe-se, no entanto, que era homem de poucas mas sábias palavras. Era ele que, com o seu ar compenetrado, dizia sempre - “tem V.Exa razão, é uma grande ideia!”. E era também ele que, quando se entusiasmava, acrescentava - “tem V.Exa muitíssima razão, isso é que é uma grande ideia!”. Fez escola o Doutor. Hoje, a nossa sociedade está cheia de “doutores”, de lambe-botas que, para subir na vida ou conservar as mordomias, não fazem mais do que dizer amen. - Mas de quem eu gosto mesmo é do Conselheiro Gama Torres, o director do jornal “Bandeira Nacional”. Gosta tanto da personagem que não me atrevo a descrevê-la por palavras minhas, com medo de a ferir. Por isso transcrevo o próprio Eça: “Os fundadores da Bandeira tinham encontrado um patrono num homem político, alta figura de relevo na história constitucional, o conselheiro Gama Torres. A protecção que dispensava, porém, à Bandeira este homem notável, era platónica, toda platónica! Não lhe dava dinheiro porque entendia, e muito bem, que a política não deve sorver fortunas mas, pelo contrário, produzi-las. Não dava tão pouco ideias porque, apesar da sua alta ilustração, que o torna um dos nossos grandes contemporâneos, a sua prudência e a sua reserva eram tais que raras vezes se lhe tinha ouvido uma opinião. Sabia-se que aquela fronte estava recheada de ideias; somente conservava-as como um tesouro escondido. Era, por assim dizer, um avaro intelectual. As suas ideias eram para si”. Eça de Queirós era um visionário, um iluminado. Ele sabia que ao criar as figuras do Conde d´Abranhos, do Doutor e do Conselheiro Gama Torres, elas ganhariam vida própria e encontrariam no nosso País terreno fértil para se reproduzirem e multiplicarem. Deram-se tão bem que ainda hoje existem aos milhares nos partidos, nos governos, nas câmaras, nas repartições e nos jornais. Não é preciso ir muito longe para os encontrar. carlos-a-abrantes@clix.pt |