Clube da Venda Nova: Encomendaram versos, recitações e cantares a poetas locais
Sep 17,2008 00:00 by RSP
O Zé do Candeeiro exulta. A época do melão e da melancia corre bem. Já vendeu três toneladas de melão casca de carvalho, três e meia de Almeirim, setecentas melancias e um número incontável de meloas sem pevides importadas do Chile.
A par disso, foram impingidas couves, vagens e grelos do seu quintal, ditos ecológicos, isentos de IVA, que foram tratados com pesticidas sem veneno, estrume de pato-marreco e regados com água da Fonte do Souto do Rio.
Com o tocante superavit decidiu ir gastar algum a lugar de experiências diferentes do reduto habitual onde circula. Escolheu bem - Lisboa e casa de fados em Alfama.
Sentou-se em casa cheia. O fadista anfitrião foi junto da mesa e cumprimentou, mesurento.
«Conhece Águeda? Quando lá for pergunte pelo dr. José Reis», informou o Zé do Candeeiro. «Todos lá me conhecem».
«Ó que grande honra, Sr. Doutor - disse o fadista, com inclinação e vénia, ao mesmo tempo que, com o dedo indicador, chamava o empregado de mesa, de libré, calças pretas e colete acolchoado com alamares, que se acercou - trazes aqui para o sr. doutor umas fatias de presunto pata negra de Barrancos, umas rodelas de chouriço de Chaves e uma jarra de vinho da minha garrafeira particular e até aconselhava, dada a sua categoria, uma tacinha de caviar “Beluga”.
«Muito obrigado», agradeceu o Zé, enternecido.
Ouviram-se fados e um deles com o nome de “Muito hás-de sofrer “ foi dedicado ao dr. Reis da mesa 5 e à D. Clara, sua esposa.
Comeu bem, bebeu duas jarras de tinto carrascão e pediu a conta azamboado. Olhou a conta, levantou-se num salto, chamou o fadista e gaguejou incrédulo:
«O que é isto? Poxa!... Deve haver engano!...»
«Não é, sr. doutor,  o que é isso para um doutor de leis?
«Eu não disse que era doutor de leis, eu disse que era Reis. O valor que aqui pedem dava para pagar o que nós comemos e bebemos e para pagar a louça, as mesas e as cadeiras e tudo…».
Mas teve que pagar. E quando ia a sair, disse para a Clara:: «Há uma coisa que me consola, ao menos fui doutor uma noite! E mais vale ser doutor uma noite do que Zé do Candeeiro toda a vida!».
*** * ***
Acabou a Festa do Leitão e agora vai haver uma para as gentes mais idosas do concelho - a Feira dos Frutos da Terra. As pessoas, em espírito revivalista vão, como há dezenas de anos, vender as novidades e os mimos que produzem e colhem. Para mais luzimento e dar um tom espiritual à festa, encomendaram versos, recitações e cantares a poetas locais, mas só se lembraram do Poeta Catula, do Pinho da Trofa e da poetisa e actriz Joana Oliva.
O Brás dos Kiwis, ao sentir-se preterido, ficou melindrado e plasmou a sua tristeza num poema, que terminava assim:

Não me deixam versejar!?
Põem lá o Catula com o bandolim?
Querem calar a minha musa?
Pois perante esta recusa
Tenho mesmo que chorar.
E o bandolim
Já que é assim,
Na cabeça do Catula vou quebrar!