LIBERDADE E SEGURANÇA
Apr 16,2008 00:00 by Luisa-Mello
Como dizia muitas vezes a minha avó paterna, imensas coisas acontecem nas passagens desta  vida. Como sabem, às gerações cuja passagem já vai comprida, não há nada mais certo. Que se tenha saudades de tempos em que as coisas que aconteciam eram menos invasivas para a nossa capacidade de sentir emoções, acho natural, embora só por o afirmar custe a cada saudosista o rótulo de reaccionário… Como era muito pequena, aquando da Segunda Guerra Mundial e por essa barbaridade passei, por asim dizer “em brancas nuvens”, deixem-me ter o direito a ter saudades. Aliás, após aquele apocalipse desencadeado por um louco fanático e pervertido e dos  “ismos” horrendos que foram figurantes e participantes nesse horror, surgiu o tal admirável mundo novo. Admirável, no óptimo sentido e admirável no péssimo sentido. Por mais que se tente valorizar o óptimo, nesta altura de passagem da vida há muitos momentos em que o exercício se torna difícil. A perda de um certo sentido de identidade e de valores, a insegurança, as injustiças que cada vez mais se afirmam num regime em que todas estas circunstâncias parecem aberrantes, levam às tais comparações, em que a chamada pós-modernidade nem sempre sai a ganhar na nossa memória. Dizia Kafka que quando o ser humano começa a previlegiar a segurança em detrimento da liberdade,  estava a aburguesar-se… O mais engraçado é que não vejo nisso qualquer ofensa: a burguesia nasceu no século XIV de uma classe de povo urbano, enriquecida por actividades comerciais. Foi, após uma longa Idade Média em que Nobreza e alto Clero espezinharam povo e populações,  a primeira tentativa da imposição do povo aos grupos sociais que se lhe impunham, quase sempre da pior maneira. Escusamos de ir tão longe… Hoje - que àparte o Clero, que, digam o que disserem, presta assinaláveis serviços não só religiosos mas também sociais -  tudo é povo. O povo que constitui a classe média - dos burgueses aos proletários - está como o pião das nicas: leva de todos os lados. Perde em privilégios, o que ganha em insegurança. Os muito ricos, com honerosíssimas excepções, não “sabem” da existência dos muito pobres, ou, se sabem, deve ser um tremendo incómodo. O Governo, socialista, faz-de-conta, como nas histórias infantis. Pode-se sempre sair à rua com cartazes e slogans de protesto. Pode, pode... Há liberdade. Pode-se deixar pedófilos à solta. Há liberdade!!!... Pode deixar-se os velhos morrer de míngua e de solidão. Há liberdade!!!... Pode ignorar-se os fenómenos de gangs confinados em guetos, que extravasam em roubos, assaltos, crimes de morte, racismo social e étnico, amoralidade, perversões… Há liberdade para tudo isto e quem torça o nariz a fardas e autoridades que tentem intervir, quando a instabilidade se torna insuportável. A mim esta Liberdade não entusisma. Aliás, liberdade sem segurança é uma espécie de travesti: parece uma coisa e é outra…