AQUILINO E SALAZAR!…
Apr 02,2008 00:00 by MJHMello
Perguntaram um dia ao dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues que opinião tinha sobre um livro de um determinado escritor, cujo nome não me ocorre: «Esse eu não li, mas também não gostei», foi a resposta. Boutade magnífica, citada a cada passo.
A notícia de estar para breve a reedição da obra de Aquilino Ribeiro - um autor que eu também não li (ou quase não li, para ser verdadeiro) e também não gostei… - fez-me recordar um episódio em que participei por mero acaso e sem relevância, a propósito da opinião que Oliveira Salazar, seu adversário político, tinha em conta o escritor beirão.
Acabara eu de ser nomeado, aí pelos idos de 50, secretário do então ministro do Interior Joaquim Trigo de Negreiros. Novato nas andanças do poder (acabara de completar 20 anos), ouvi tocar o telefone «especial» (privativo das altas esferas) que se encontrava no gabinete do membro do governo. Por mero acaso o ministro estava ausente (se bem me recordo, fora cortar o cabelo e aparar o bigode…). Face à insistência do toque telefónico e não se encontrando mais ninguém por perto, tomei a decisão de atender, correndo embora o “ risco”  de ouvir do outro lado da linha a voz inconfundível do presidente do Conselho.… O que veio a acontecer.
- “Muito bom dia. Daqui Oliveira Salazar. É do Interior?” (Salazar nunca se referia aos ministérios utilizando o nome próprio de cada um: Estrangeiros, Finanças, Defesa, etc.). Titubeei um sim verdadeiro, embora pouco convincente: Fala o secretário  Homem de Mello, bom dia senhor Presidente.
- Não me diga que é o filho do Conde de Águeda… Que sim, que efectivamente era, confirmei, meio aparvalhado. Peço-lhe que dê os meus respeitosos cumprimentos ao senhor seu pai (Salazar antecedia sempre os cumprimentos que mandava pelo qualificativo «respeitosos», fosse quem fosse o destinatário, neste caso o velho conde ou o novato e insignificante secretário seu filho).
“Queria que me fizesse o favor de pedir ao dr. Negreiros que me telefonasse directamente assim que possível”, adiantou o Chefe do Governo. Não é urgente mas é de meu interesse pessoal (Salazar estava interessado em receber a escritora Christine Garnier….)
- Sim, senhor Presidente. Darei o recado, assim que o senhor ministro regressar. Mal sabia eu que estava a desencadear a maior paixão da vida de Salazar.
Numa das últimas da primeira série de entrevistas ocorridas entre a senhora Garnier e o Chefe do Governo português, ao despedir-se de Salazar, a interlocutora perguntou: Agora que já posso dizer que conheço o político mais importante de Portugal, seria capaz de me indicar os nomes dos demais líderes dos outros sectores da sociedade portuguesa, tais como a cultura, as artes, as letras, etc.,etc?
- “Vou limitar-me às letras”, respondeu. “O resto ficará para depois. Tente ser recebida por um homem chamado Aquilino Ribeiro, beirão como eu. Vai dizer-lhe mal de mim. É truculento, tem mau feitio. Pouco importará. Pago-lhe na mesma moeda. Mas é um grande escritor!
Pelos vistos - e ao contrário de Nelson Rodrigues - também é possível gostar sem se ter lido… É, aliás, bem possível que Salazar tenha lido Aquilino. Quanto a mim, embora não o tenha lido, a verdade é que gostei…  
n MJHM-  Director Honorário SP

Apostila: O Desabafo aqui publicado na passada semana provocou inesperadas “ondas de choque” que muito me sensibilizaram. Não me perguntem o que me levou a escrevê-lo. Por vezes, nem nós mesmos conseguimos explicar o que nos motiva. n MJHM