QUE NOJO DE GENTE!
Dec 12,2007 00:00 by CARLOS A. ABRANTES
O conhecido actor de telenovelas Rogério Samora, ao entrar num avião de regresso da Índia, terá dito: “Tantos portugueses, que nojo!”. Claro que foi um desabafo, um acto reflexo. Saiu-lhe sem querer, como quem arrota, espirra, ou lança perdigotos.
Imagino que se soubesse que as suas palavras iriam ser ouvidas por um jornalista, nunca as teria proferido. Ou ficava caladinho, ou fotogénico e dizia com o ar embevecido de quem ama a sua pátria e o seu povo: “Fomos os primeiros a chegar à Índia e ainda por cá estamos, ao fim de tantos séculos”. E acrescentaria, como o poeta: “Abençoada pátria que tais filhos tem”. Actor que é, não lhe teria sido difícil representar o papel de um português que se orgulha do seu país.
Somos um país de actores, em que todos representam, apesar de muitos desconhecerem qual o seu papel.
Nas campanhas eleitorais, na hora de pedir votos, os políticos desfazem-se em beijinhos e abraços. E distribuem toneladas de promessas. É o caminho que vai ser alcatroado, o buraco tapado, o bairro electrificado, a acessibilidade melhorada, o imposto que baixa e o salário que sobe! Mais uma igreja nova, um cemitério e uma auto-estrada sem portagem! Prometem de tudo. Adoram o convívio com peixeiras e arrumadores, com doentes e desempregados, com prostitutas e inválidos. Mas na primeira oportunidade vão tomar um duche reconfortante, lavam-se e desinfectam-se, não vá o diabo tecê-las. E dizem baixinho, para que ninguém os oiça: “que nojo de gente”.  
E qual é o papel do povo? Qual o papel de quem deposita o seu voto numa urna?
A esse tentam convencê-lo que é um actor importante, que representa o papel principal. Mas enganam-no, trapaceiam-no. Reservam-lhe apenas o papel de figurante, para encher comícios, agitar bandeiras, bater palmas, ou gritar palavras de ordem. E votar, claro! E o povo, na sua santa ingenuidade lá vai votando, umas vezes nuns, outras vezes noutros. É aquilo a que se chama eufemisticamente de alternância democrática.
Mas há-de vir um dia, mais cedo ou mais tarde, em que o povo constatará que foi manipulado, aldrabado. E nesse dia dirá, com razão: “que nojo de gente!”