Olhe que vai criar um elefante
Dec 03,2014 00:00
A assembleia do Clube reuniu para discutir a situação do concelho.

O Gil Pedalais e os seus pares que comandam o aparelho, com a sua costumada humildade, propalaram que são os melhores e que Águeda pode considerar-se um exemplo para o País e até poderia ser património da humanidade, como o cante alentejano.
“Nisso tem alguma razão – comentou o Paulo Roçado da Mata – são tão sonolentos, só têm melodia, mas é tão vagarosa e lenta...”.
O  Abrunhões, acrescentou: “Não são grande coisa, mas são melhores que os laranjas, que ainda fizeram menos”.
“Ai é?!... - abespinhou-se António Martírios, dos populares - mas esta assembleia não passa de um lugar mal frequentado, porque estes 32 cidadãos que o frequentam, não são honestamente exigentes”.
“O presidente Gil Pedalais continua a apostar num mandato assente na propaganda, só pensa na cidade e trata as freguesias como parceiros menores e isso é indecente. As freguesisas só comem migalhas “,  acrescentou o Alberto Marquês.
“Não lhe admito essas insinuações – respondeu, visivelmente irritado, o Gil Pedalais – mas para o senhor e os outros deixarem de falar, vou construir um Driving Rangers e um Centro de Artes”.
O Paulo Macieira encolheu os ombros e foi dizendo: “Cuidado, sr. Presidente, olhe que vai criar algum elefante!”.

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Os sócios da Associação dos Secos e Molhados de Águeda deambulavam pelo salão, desordeiros e indisciplinados a bichanar e, de vez em quando ouvia-se o arrastar de uma cadeira.
A presidente Olívia Merkel, que tinha comunicações a fazer e se queria fazer ouvir, pôs dois dedos na boca e soltou um assobio sibilante, estrídulo, com tantos decibéis que arrepiou os associados e provocou o silêncio. Esperou que todos olhassem para si e começou:
“Como sabem, estamos com o Natal à porta, a época por excelência para os comerciantes, que podem aproveitar para vender tudo, até os monos. A febre consumista de todas as pessoas fica em alta, pode prolongar-se por todo o ano...”.
“Não será tanto assim – comentou o Acácio Queirós do Vale – no inverno pouca gente corta o cabelo que tapa o frio das orelhas, eu gosto mais da Páscoa”.
“Deixem-se de intervenções marginais – continuou a Merkel – promovi esta reunião para que me sugiram qualquer coisa de apelativo para incentivar o comércio”.
“Eu acho que deveríamos usar todos nesta quadra um gorro vermelho com uma aba branca“, acrescentou o Paulo Rinodente.
“E casaco e calças vermelhas, enfiadas numas galochas“, avançou a Manuela dos Cacos.
A Olívia Merkel continuou com ar sério: “Ouvi atentamente essas ideias, que acho interessantes, mas reflecti demoradamente e penso que seria muito mais sugestiva a construção de uma casa com tábuas e uma chaminé, na baixa e outra na alta da cidade e um homem vestido de Pai Natal, com um saco às costas, barba branca enfarruscado, por ter caído da chaminé...”.
“Eu encarrego-me de fazer a casa – ofereceu-se o Paulo da Diamante – só preciso que me dêem as tábuas”.
“E a neve?”, perguntou o Acácio do Gás.
“A neve… põe-se lá farinha de trigo, o Joaquim da Trigal é uns mãos largas, não se importa de dar uns sacos”, disse a Céu Rinodente.
“E, para haver mais realismo, o Pai Natal deve ser representado por um comerciante, vão para lá por turnos -  acrescentou a Olívia Merkel – quem é o primeiro voluntário?”.
“A mim ninguém me apanha lá, poxa!”, exclamou o Zé do Candeeiro. Saíram porta fora e a Olívia Merkel ficou a assobiar sozinha.