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Recordar para corrigir
Oct 16,2013 00:00
by
Manuel Armando (padre)
Estou em crer que todas as pessoas gostam de trazer à memória certos acontecimentos do passado, numa tentativa psicologicamente encoberta, de reviver com autenticidade aqueles momentos marcantes na sua formação de personalidade. O nosso crescimento, como indivíduos, tem a inevitabilidade da marca dos progenitores e de quantos, ao longo dos primeiros anos, tiveram a difícil tarefa de nos moldarem os critérios de honestidade, respeito, empenhamento no trabalho, crescimento intelectual ou, numa palavra, na aprendizagem da verdade. Uma vez experimentada na meninice, ela deveria pautar o agir futuro de cada um, com o sentido de formar-nos individualmente na direcção da sã convivência em sociedade e família. Aqui não há a presunção do convencimento por que tudo, em todos os tempos e lugares, tenha obtido resultados a cem por cento ou, até, meramente positivos. No desenrolar dos percursos, muitos educadores vão desaparecendo ou, sobretudo, esquecendo os seus elementares e fundamentais deveres, enquanto os meios sofisticados da tecnologia actual aparecem, com devagar, a substituir materialmente aquilo que poderia ser o trabalho educacional na moralidade, na intelectualidade e mesmo no respeito pela própria corporeidade integral. Na realidade, hoje quase só ouvimos queixas e lamúrias sobre estados e atitudes de má-criação centrada nos mais novos e motivada por variadíssimas causas. Penso, como muita outra gente, que a primeira base deste desequilíbrio está verdadeiramente na família, com grande frequência, desmantelada ou a enfermar de descuido e desmazelo despropositado. São as condições sociais a obrigarem a um estilo de vida onde os pais não acompanham os seus filhos com a regularidade precisa, deixando-os à mercê das contingências ambienciais. Sente-se, é certo, uma determinada dose de preocupação, no início do ano escolar, sobre os sítios e pessoas de protecção mas apenas, parece-me, com o intuito camuflado, de as crianças poderem ser mantidas, o mais tempo possível, longe do pai e da mãe, de modo a que estes continuem dispensados para o seu trabalho e, quiçá, seus lazeres particulares. Então, quando haverá disponibilidade para o acompanhamento e educação dos mais pequenos, indefesos? Como “de pequenino se torce o pepino”, os valores aprendidos nas tenras idades são os que mais ficam gravados no subconsciente. Daí a urgência de se inculcarem, a tempo e horas, os princípios morais sérios, base para a construção do Homem em todas as suas dimensões. A propósito, lembro um pequeno episódio, de grande alcance no meu crescimento. É inegável o facto de que sempre gostei muito do chocolate, (ao menos hei-de ter alguma virtude!). Ora, estava eu no primeiro ou segundo ano de Seminário, quando me calhou a vez de fazer o que passava por todos os alunos, em cada semana, - buscar os tabuleiros do lanche que era comido no pequeno intervalo de recreio da tarde. Naquele dia, cada pão de trigo trazia dentro uma pequena porção de chocolate. Antes que ninguém chegasse e visse, esvaziei um dos pães, enchendo o outro com duas peças e logo o pus no bolso. Só que um dos educadores estava ali de atalaia e, antes que se aproximassem os outros colegas, abeirou-se de mim e perguntou-me com a maior serenidade: “Se encontrasses o teu pão sem chocolate, como ficavas? Ora, põe tudo como estava e tu, hoje, ficas sem lanchar”. Não me bateu nem dirigiu palavras ásperas. Como adulto, rio-me daquela criancice mas, naquele momento, aprendi o que jamais iria esquecer. A lição foi bem profunda. Vi e vejo que não é necessário muito, mas pressuponham-se as coisas a tempo e horas para endireitar caminhos de crescimento. Agora, recordar é ajudar a corrigir. n Manuel Armando |