|
Saúde: A Misericórdia e o Hospital
Jun 18,2013 00:00
by
Amorim Figueiredo (Dr.)
Considero-me cidadão responsável que, como médico, tem obrigação de ter a competência bastante para se pronunciar sobre a questão tão quente para o nosso concelho, o da prestação de cuidados de saúde. A minha experiência como Director Clínico do Hospital de Aveiro e de ter criado os Serviços de Ortopedia de Aveiro e de Águeda, com qualidade que foi referenciada por responsáveis da Saúde, levam-me a, com a neutralidade possível - sou de Águeda e com ela me identifico - e sou o presidente da Comissão de Ética do Hospital de Aveiro desde 1994 e agora Centro Hospitalar do Baixo Vouga (CHBV), com as obrigações éticas inerentes, emitir, mais uma vez, a minha opinião. Com as políticas do Ministério, na gestão da Administração do CHBV, criou-se um clima de crispação com a nossa Câmara Municipal, que em nada beneficia a resolução das opções em discussão. Santa Casa rejeita hospital Tenho acompanhado e promovido reuniões, no sentido de analisar os diferendos de opinião da Câmara, através essencialmente do senhor vice-presidente, por um lado, e do Conselho de Administração do CHBV, por outro, quase sempre na Misericórdia bem como, numa conjunta, com o residente da ARSC, além de conversas telefónicas, ora por minha iniciativa ora pelos intervenientes decisores. A Santa Casa rejeita receber o Hospital, do Ministério da Saúde, o único com competência decisória, para desenhar a carta hospitalar. Entende que os serviços de doentes agudos são obrigação do Estado, desde Abril de 74. Dadas as circunstâncias, de todos conhecidas, de grande fragilidade financeira do país, aceito que, à imagem do que fazem as nossas empresas, que se associam para melhor gerirem os recursos de cada uma, também tenhamos, em macro-economia, que aceitar que tal possa acontecer na saúde. Então, para se encontrarem soluções que pelo menos dignifiquem as partes que tem que se subordinar ao mandamento do doente, que às vezes parece esquecido nos interesses em jogo. Tenho mais uma reunião urgente de trabalho marcada o presidente do CA do CHBV e com o vice-presidente da Câmara, para ver se, de uma vez por todas, se vão iniciar as obras, para podermos tratar com mais dignidade os doentes que são tratados no nosso Hospital, procurando melhorar as suas condições de alojamento. Deixar de “ralhar” Posso aceitar que, na gestão de recursos, possam ser necessárias adaptações, mas quero ter a certeza que os responsáveis acabarão por fazer o melhor com o menor custo. Dado que o grande problema é de ordem financeira e enquanto o Estado, através do órgão competente, diz não ter dinheiro, o teremos por promessa de oferta da Câmara que, pela sua atitude de colaboração, louvo e cumprimento. Com transparência e lealdade, o melhor possível será conseguido, tendo com referência negativa o ditado que diz que “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”! Vamos deixar de “ralhar” para que a razão se imponha como denominador ético dos nossos procedimentos. Temos direito a boa assistência, sem esquecer os que estão pior do que nós. A justiça distributiva pode não ser Kantiana, em que o mundo se resume a “mim”, nem simplesmente utilitarista com o melhor para o maior número de utilizadores ou piedosa ou mesmo comunitária, em que o Estado trata os doentes para o servirem. Oásis de... miséria Os pomos da discórdia centrados no laboratório e agora na ortopedia serão, espero, reequacionados, com a eficácia e a eficiência adaptadas às condições gerais do nosso país, com ênfase de urgente melhoria de vias de comunicação rodoviárias. Não queremos nenhum oásis de fartura nem queremos de forma alguma, um oásis de miséria. Necessitamos de equidade e esta também subordinada aos princípios e modelada pelas possibilidades dentro da nossa localização. O stress no ambiente emocional que se está a instalar na população, não beneficia a ninguém e, pior, cria doença de ordem psicológica que nos destroem mais ainda. Não sou doutrinador, mas não sou indiferente às possibilidades de soluções que, se não forem óptimas, sejam pelo menos, as melhores. Águeda, 16/06/2013 - AMORIM FIGUEIREDO Provedor da Misericórdia |