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A desilusão é a morte da esperança
May 08,2013 00:00
by
Almeida Roque (Comendador)
Logo a seguir à apresentação do seu programa à Assembleia da República, em 15/12/2011, escrevi uma carta ao dr. Passos Coelho, com a autoridade que me é conferida pela minha vida de luta continua nas lides comerciais e industriais, a aplaudi-lo entusiasticamente, na qual lhe descrevi “um autêntico programa de boa Governação”. Infelizmente, dois meses depois (21/02/2012 ) já tive de lhe escrever a manifestar as minhas primeiras desilusões. Daí para cá, um pouco pelas condições impostas pelos credores e outro tanto por culpa própria, a sua actuação, tem-nos desiludido completamente! A primeira e maior foi o programa de reformas, sem as quais o país jamais poderá viver com um mínimo de dignidade. Não passaram de intenções sem ter, ao menos, a coragem de explicar aos portugueses quais foram as razões da sua viragem. Depois disto, ficou claramente desnudada a sua falta de capacidade ou poder de convicção, para ganhar direito a ficar na história. E tenho mágoa que assim seja, porque continuo a pensar que ele (Passos Coelho) deseja ser sério, sobretudo quando ouço os despudorados debates na Assembleia da República e as suas respostas, dadas com muita elevação. Mas a grande tragédia é… “estar prisioneiro do sistema“! - DÍVIDA. A prática do Governo deixa muito a desejar e é com um misto de desilusão e revolta que vejo esta caminhada para um abismo, cujos contornos estão à vista, e verifico que, depois de dois anos de sacrifício impensáveis, com leis fiscais que assemelham este país a uma prisão sem grades, onde só se faz qualquer negócio para ir vivendo e ninguém investe se não for com “o dinheiro do outro“, onde negociar um ramo de salsa, ou um molho de grelos, exige guia de transporte e factura! E quando a tudo isto nos obrigam, afirmando que o objectivo é pagar a dívida que governantes sem escrúpulo fizeram e, passado este calvário, ela é mais de 20 milhares de milhões superior ao que era há dois anos e será impagável no próximo século, é legitimo perguntar: afinal, de que tem valido o sacrifício dos portugueses, sobretudo a perda daquele mínimo de liberdade para vender ou trocar pequenas coisas que, afinal, são o vértice da sã alegria popular?! - ESPERANÇAS? Temos um Governo que, pelo programa de reformas que apresentou, nos deu razões para pensar que, da entrega de empresas e serviços públicos à iniciativa privada, com o Estado a servir de árbitro, de forma a ter direito de verificar a qualidade e preço de melhores e mais baratos serviços, por efeito de mais eficaz administração, nos deu as melhores esperanças. Todavia, isto não passou de intenções. Se estas chegaram a existir. Na prática, o que temos constatado é que o Governo vai centralizando tudo à volta do fisco, fazendo-nos pensar que a antiga PIDE já tem uma equação e que as reformas prometidas para termos melhores e mais baratos serviços acabaram, afinal, por nos conduzir a uma situação de teor contrário, com o Governo a esquecer qualquer reforma que valha esse nome e as empresas públicas a agravar o défice, com ordenados chorudos de trabalhadores e dirigentes, acrescido tudo isto com greves que, para além do seu intrínseco prejuízo, até exportações prejudicaram!!! Se não é ilusão, parece que o Governo centraliza a sua acção no sistema fiscal, esquecendo que o fisco, a justiça e a má prática de governação são os grandes culpados de não haver investimento e que, sem investimento, não haverá progresso nem o desemprego deixará de aumentar, nem será desta forma que os credores receberão o empréstimo. - INDEPENDÊNCIA. Estamos a viver o tempo trágico de 1580. Se nessa data perdemos a independência, também já a perdemos agora e é por essa razão que estamos a servir de cobaia para os mandantes estrangeiros nos imporem políticas que todas as boas práticas condenam e nos levam a pensar se não haverá, escondido nesta doentia austeridade, um objectivo mais perverso, em relação a um futuro que pode não estar muito distante. A dívida não devia ter sido feita. Cada um deve viver com os rendimentos que tem, se não quer ir à falência. A forma correcta para pagar, exige austeridade (que até devia ser atributo normal de todos nós), mas impunha-se que esse atributo fosse acompanhado de mais e melhor trabalho, porque essa é a forma correcta para fazer o dinheiro com que a haveríamos de saldar, ainda que isso só por hipótese seja possível! - CAOS. Uma realidade se impõe à nossa consciência, com este arraial, onde os interesses pessoais e de grupo, obrigam à caça ao voto a qualquer preço, distorcendo a verdade, negando ou afirmando e insultando conforme a conveniência, com o objectivo de manter a situação vigente! Qualquer sociedade deixa de merecer esse nome, quando a verdade é a vontade do mais forte e a justiça não existe, ou não tem possibilidade de ser obedecida. Está assim criado o “caos“, que é o carrasco de qualquer vida em comunidade! Para os políticos, com raras excepções, isto nada conta, porque nunca farão a lei e muito menos o tribunal que julgue os seus dislates. E o povo, que o hino deles diz que é quem mais ordena, ficará à espera de exercer esse poder na lua, na melancolia da sua paradisíaca luz. - DEMOCRACIA. Amamos a sociedade com a consciência do dever cumprido e meditamos seriamente na triste situação em que ela se encontra e na falta de liberdade real, para as mais comezinhas práticas familiares, embora a democracia seja a religião cantada por todos, da direita à esquerda. Essa falta é significada por leis fiscais que não permitem, por exemplo, que um chefe de família (pai ou mãe) ofereça a um filho um cesto de grelos ou de batatas criados na sua horta pois, se isso acontecer e a autoridade o interceptar, sujeita-se a multa e apreensão de veículo, como já aconteceu no nosso concelho. E assim chegamos à conclusão de que os políticos, com as leis que em catadupa vão criando, e traindo o sentido do voto que lhe foi dado, mais do que governantes, se tornaram, de facto, OS DONOS REAIS DE UM MÍNIMO DE LIBERDADE INDISPENSÁVEL, ATÉ PARA AS PRÁTICAS NORMAIS DA VIDA FAMILIAR, fazendo do Estado um verdadeiro algoz do povo, com a agravante de permitir aos MONOPÓLIOS que, com os seus abusos escandalosos, façam também da vida económica um fardo insustentável para a maioria da sociedade. E uma interrogação constante atormenta a nossa dignidade de cidadãos: será que estamos a caminho de uma situação parecida com a que, até há cerca de 30 anos, amargurava os povos que vivem lá para as bandas do ponto cardeal onde nasce o sol? Poderemos estar enganados, mas os sintomas não nos deixam tranquilos! n ALMEIDA ROQUE |