Os Portugueses são nossos irmãos
Mar 13,2013 00:00 by António-Silva
Nos anos sessenta do século passado e até Abril de 74, visitávamos Moçambique duas vezes ao ano e desde a primeira viagem que partilhamos daquela máxima: “Quem cheira as terras de África, por uma vez que seja, fica enfeitiçado por ela para toda a vida!“.
Envolto por esse sentimento nostálgico, que se confunde com saudade, resolvi, há dias, aterrar em Maputo, nome herdado do “rio que banha as terras do Catembe” e desagua na baía marginal à cidade que os portugueses baptizaram de Lourenço Marques e dela fizeram a capital de Moçambique em 1898.
À chegada ao aeroporto, notei alguns resquícios racistas, com o funcionário responsável pela verificação do passaporte a dizer-me que era bom que regressasse no fim do prazo concedido para a visita, 15 dias. Como se eu tivesse idade para ir roubar algum lugar aos nativos daquela, apesar de tudo, maravilhosa terra, que alberga um extraordinário povo, o povo moçambicano, que conserva, arreigadamente, os costumes portugueses, fazendo jus aos 500 anos de história em comum!
Mas, há 40 anos, na sequência da nossa retirada, os asiáticos tomaram conta daquele espaço e transformaram-no, principalmente a periferia da jóia do Índico, em “feiras-da-ladra”, no pior sentido que o termo encerra, onde crescem   bairros de lata que dominam os negócios de rua e, aparte a ocasião do negócio, mantêm-se à margem da população local  e as zonas onde acampam transformam-nas, rapidamente, em quadros degradantes de barracas feitas de cartão, restos de caixotes e bocados de chapas enferrujada, sendo notório um clima de desleixo, num ambiente de sujidade onde se come, se dorme, se satisfazem todas as necessidades fisiológicas e se negoceia.
Como consequência, e porque escasseia o saneamento, sente-se no ar um odor fétido, característico dos locais com latrinas a céu aberto. São zonas onde impera o caos, com riscos para a saúde pública, paredes meias com bonitos e históricos edifícios da era colonial, muitos deles a precisarem de uma barrela que lhes faça recuperar a dignidade de outrora.  
Instalados no Hotel Avenida, tínhamos o privilégio de ter ao lado um restaurante de média qualidade, que albergava algumas centenas de clientes, principalmente moçambicanos, e tinha televisores em todas as direções, para a populaça ver o Real Madrid-Barcelona. Eis senão quando o Real marca o primeiro golo! Parecia estarmos nas bancadas do Santiago Barnabéu, tal foi a exuberância do clamor provocada pela adrenalina que o jogo fazia crescer. Dali em diante, eles torciam-se nas cadeiras, pontapeavam o vizinho da frente, roíam as unhas e até nos provocaram “ciúmes”, por pensarmos que tanto entusiasmo era cumplicidade clubística com os espanhóis. Qual quê!?
No fim do jogo e com a vitória do Real sobre o mais directo rival, o Barcelona, percebemos que, afinal, os moçambicanos torciam todos pelo Ronaldo e o Mourinho. Porquê? Simplesmente porque são portugueses!
Grande lição de patriotismo recebemos deste povo, maioritariamente anónimo, mas que tão bem sabe onde está a sua história e as raízes da sua cultura.
Mas a maior lição estava para vir mais tarde, no fim da feira de amostras, em que a Câmara de Águeda marcou presença, apoiando a logística e que foi um sucesso. Pedi à camareira, de cor, para me ajudar a levar alguns volumes do quarto até à recepção do hotel e, já no elevador, perguntei-lhe como viam os moçambicanos tão grande avalancha de portugueses na cidade, depois de uma longa guerra que, naturalmente, deixou marcas?
Respondeu-me: “Os portugueses são nossos irmãos e os que fizeram a guerra já morreram todos!”.
Já de partida e convencido de que os moçambicanos têm fortes razões para não perderem a esperança no futuro risonho que merecem, havia de ter mais algumas provas do portuguesismo que muitos africanos sentem e manifestam assim:  “Eu nasci Português no Moçambique que eu adoro, mas morrerei Português em qualquer parte do mundo!”.
n a.a.silva 2012-03-13