O “burrinho” do Papa… e o tempo da Inquisição
Jan 16,2013 00:00 by jneves
O Natal passou e, como é da tradição, outros virão. No presépio, o burrinho e a vaquinha continuarão a fazer parte da cena bíblica do nascimento do Menino, apesar de interpretação diversa publicada por Bento XVI no livro “A Infância de Jesus”, apresentado pelo Vaticano no último mês de Novembro.
Para surpresa nossa, o senhor padre Manuel Armando, em artigo publicado na última Soberania, afirma “não descortino de onde partiu a primeira pedra que pretendia atingir e estilhaçar as figuras dos animaizinhos do presépio”.
Ora, dizemos nós, não terá partido do próprio Papa, que contesta a existência de animais na cena do nascimento? E não é o senhor padre quem se baseia na “singular conexão entre Isaías 1,3; Habacuc 3,2; Êxodo 25,18-20 e a manjedoura”, onde “aparecem os dois animais como representação da humanidade para legitimar os animaizinhos?”.
Mal informado anda ainda sobre o “transmissor incauto que ousou reproduzir com ares de grande sabença, aquilo que apenas ouviu e mal” porque, afinal,  apenas se limitou a ler, e bem, o que Bento XVI escreveu no seu livro e não a “subentender  ou a deduzir “,  pelo que o escrito “fez entender”.
Refiram-se, a propósito, as críticas de especialistas que já analisaram a obra e acusam Joseph Ratzinger de cometer erros científicos e de a sua representação de Jesus não corresponder às conclusões das ciências bíblicas histórico-críticas. Afinal, dizem, em que se baseia o Papa para a sua verdade, sabendo-se que há omissão no que respeita à infância e juventude de Jesus, cujas únicas referências se encontram nos livros apócrifos, de a partir do séc. V, não reconhecidos pelos cânones bíblicos?
Afinal, onde está a miopia? Em quem se guia pelas conclusões de Bento XVI, ou em quem utiliza Isaías, Habacuc, Êxodo e manjedouras para dar o Papal dito por não dito?
O tempo do “vox Papa, vox populi” e da Inquisição já lá vai e passaram à história as condenações à morte às claras, já que o mero desaparecimento,  como que por artes mágicas, não servia como exemplo.
A bem da verdade e imposições canónicas à parte, quem é que “não sabe ler ou se recusa a entender”?
Os tempos que correm são de liberdade de expressão, sem abusos ou ofensas e muito menos de “banir de cena” quem tem opinião contrária à nossa e a dá à estampa!
Tem hoje a Igreja Católica muitos e graves problemas a resolver e ultrapassar, dentro das suas paredes e fora delas.
Oxalá o “espírito natalício” seja a luz da sua hierarquia, libertando-a dos palácios, das sumptuosidades, desburocratizando-a e aproximando-a do seu povo.
Não é, Beatriz? n  JNS