O "Ti Cantoneiro"
Nov 15,2012 00:00 by MANUEL ARMANDO (padre)
Muitas são as ocasiões para conhecer pessoas não pelo seu nome próprio mas, melhor, pela sua alcunha de tradição aldeã, ou correspondente a uma profissão.
Quantas pessoas se descobrem pelo que fazem e não através do nome que lhes puseram aquando do registo civil ou no baptismo!.
Quando intentamos voltar atrás no tempo, usando as fundas memórias de figuras de um passado, ainda relativamente próximo, que nos marcaram em variadíssimas direcções da vida, assalta-nos uma doce saudade porque poderão terem sido vultos de alguma envergadura que trouxeram muito de positivo na construção de uma sociedade harmónica e equilibradamente justa.
É sempre gratificante aflorarem-nos à memória todos quantos, de um modo ou outro veicularam a nossa maneira de viver no desenrolar dos anos.
Em diversas ocasiões, passam pela recordação indivíduos que se fizeram presentes com a sua forma de ser e estar na vida num sentido positivo e construtivo, incentivando as outras pessoas a seguirem-lhes o exemplo e a aceitarem o seu testemunho espontâneo de comportamento.
Vejo, mesmo diante dos olhos, um homem que, na minha meninice, embora sabendo como se chamava, mais facilmente o tratávamos pelo carácter da profissão.
Era, nem mais nem menos, o “Ti Cantoneiro”. Só assim o trazíamos à nossa convivência. Isso, porém, corresponderia a pouco se não o acompanhasse, com os seus hábitos do trabalho que desempenhava, a marca das riquezas morais de convívio e serviço.
Tomava a seu cuidado um cantão de estrada com as respectivas valetas. Em cada manhã, lá assomava, ao dobrar da esquina, o “Ti Cantoneiro” com pá e enxada no seu carro-de-mão para cuidar aquele seu rincão que o Estado lhe entregara para o devido zelo de conservação aprazível. De vez em quando, passava por lá um inspector a examinar o brio deste como dos outros, seus comparsas. Conservava tudo muito esmerado.
 Não admira, pois, que fosse elogiado porque até o seu trabalho de estrada espelhava uma alma de grande simplicidade. Sempre atento à segurança de qualquer criança mais descuidada, ainda que não fosse intenso o movimento automóvel.
A meio da manhã, sentado no posto de trabalho, a valeta, desfazia o embrulho feito em papel do jornal de onde saíam um naco de broa e uma ou duas sardinhas fritas que, depois, eram regadas com a pinguita, trazida no cantil. No final, tirava do seu bolso um canivete para descascar uma peça de fruta.
Até aqui nada de incomum. Os exemplos do “Ti Cantoneiro” não se faziam centrar apenas no cuidado pelo cantãozito de trabalho, mas sobretudo na amabilidade do seu convite, a nós pequenitos, para partilharmos da sua frugal refeição. E que bem sabia aquela broa humedecida no azeite da fritura da sardinha! Até a tal peça de fruta era dividida em tantos bocados, quantos fossem os miúdos presentes.
Depois, ora depois, era feita a aula para a lição sobre as virtudes do trabalho e da convivência pois nunca ninguém estará acima dos outros e todos laboram, em união, para o bem comum.
O “Ti Cantoneiro” alindava a estrada, limpava as valetas e alisava as nossas mentalidades, apontando-nos caminhos de solidariedade, honestidade e verdade.
    Nestes nossos tempos, acabaram-se os cantoneiros. As estradas começam a ficar intransitáveis. As valetas fedem a animais mortos e povoam-se de enormes matagais, que ocultam os campos de visão e acção.
Abrem-se outras estradas, dividem-se terrenos e famílias, fecham-se corações e vontades de partilha. Não se ensinam aos mais novos as vias melhores para alcançarem o respeito por si e pelos demais. Cimenta-se o egoísmo desenfreado, alastra-se o empobrecimento enquanto a riqueza de sentimentos e a dignidade do trabalho que constrói a sociedade permanecerão enterradas na valeta onde ninguém irá, decerto, descobri-las nunca.
Que reapareçam, porventura, os cantoneiros a alisarem as estradas por onde as populações hão-de caminhar até ao Governo e trazer este para o seio do povo que lhe mostrará, às escâncaras, a fome assente nas suas excelentes virtudes. n  PADRE MANUEL ARMANDO